quarta-feira, 20 de outubro de 2010

MTV, eu vi

A alegria durou pouco, mas nos pareceu uma eternidade. Os coroas estavam a mil tentando descobrir uma forma de ganhar dinheiro, já que o Plano Collor confiscou a poupança bancária de boa parte dos brasileiros. E nós, os mais jovens, estávamos preocupados em tentar achar um jeito para conseguir sintonizar aquele "canal americano que rola som o dia inteiro". A partir de 20 de outubro de 1990 não importava como, seja com sintonizador de UHF ou um pedaço de Bombril, todo mundo queria conferir aquela emissora.

Confesso que foi muito complicado começar a gravar os videoclipes em vídeo, especialmente os do saudoso "Fúria Metal", apresentado pelo ex-advogado Gastão Moreira – qualquer semelhança com este que vos escreve é mera coincidência. Em todo caso, o fã do Monster Magnet e ex-companheiro do meu amigo baterista Ricardo Confessori na banda Witchcraft, ia nos brindando com o que havia de mais legal e novo no mundo Metal. Além dos clipes, quando a emissora efetivamente pegou, foram abrindo espaço para entrevistas e matérias especiais quando atrações de peso visitavam o nosso país. Não tão frequente como a absurda e, até certo ponto, improvável enxurrada de shows que assola o país hoje em dia, cada evento era realmente um grande acontecimento. Movimentava todos com enorme euforia. Mais ainda para eles, os profissionais da MTV, que estavam descobrindo a melhor forma de trabalhar e abordar estes assuntos ao público jovem, algo que tempos depois nós (ROADIE CREW) também vivenciamos.

Não seria exagero dizer que a MTV Brasil fez com que Metallica, Guns N'Roses, Skid Row, Bon Jovi, Sepultura, Faith No More, Living Colour, Pantera, Aerosmith e algumas outras bandas incrivelmente atingissem o status de 'cool' no país do Samba. Só que era justamente aí que morava o perigo. Ninguém tinha consciência, mas a turma dos "in" (descolados) começou a trabalhar tramando o passo seguinte, aquilo que substituiria o que nós tanto gostávamos. A turma dos camisa de flanela chegou e aí a MTV se tornou a NTV, mudando aos poucos o seu foco e, anos depois, descambando de vez para o precipício. Claro que estou focando exclusivamente no nosso lado, o do Heavy Metal.

A massificação fez a sua parte e o que antes era marginal entrou na moda. Porém, o que entra na moda tem prazo de validade e aquilo que era legal se tornou motivo de chacota. Hoje, quando lembram que o Heavy Metal existe ou é parar tripudiar ou relembrar os feitos das bandas acima mencionadas que, milagrosamente – ou propositadamente –, conseguiram suplantar o efeito NTV e a linha "severa" da brasilidade exacerbada. Se existe algum problema para abordar o assunto que hoje ninguém mais tem a menor noção na emissora, algum "in"(die) deve dar um berro na redação: "Ah, é sobre isso? Então, chama o Andreas Kisser!".

A noção da fidelidade e da forma passional na relação dos fãs com o Heavy Metal pode ter mudado, mas ainda me lembro do ódio de todos os meus amigos no pós-Rock In Rio de 1985, quando confundiam o Língua de Trapo com grupos de Metal. O "Festival dos Festivais" foi um prato cheio para satirizar os "metaleiros", termo que qualificou de forma caricata o fã de Metal. Assim, nada mais coerente do que o caricato Língua de Trapo ter ficado entre os doze finalistas com a música "Os metaleiros também amam". Aí você pode pensar: "nossa que radicalismo bobo". Sim, bobo. Realmente bobo. Espera aí... Como diria o saudoso Costinha, me lembrei de outra que vem mais a calhar. Ainda na fase "Rock In Rio", a comédia infantil "Os Trapalhões no Reino da Fantasia" (1985) mostrou o quarteto humorístico Didi, Dedé, Mussum e Zacarias parodiando uma banda de Heavy Metal e encenando o show do "Heavy Traps", com referências diretas ao AC/DC. Fazendo uma analogia aos nossos tempos, mais um ponto para a NTV, que reviveu a paródia com seu digno representante do mais puro Heavy Metal: Massacration.

Embora alguns sejam verdadeiros fãs do estilo e grandes comediantes, o desserviço prestado pelos hoje "Legendários" será incalculável. Mais do que o Viper quando tentou seguir os passos do Raimundos com sua fase "Rock nacional pesado". E todos sabem, após se tornar uma megabanda, a banda de Brasília sumiu embalada pela fé de seu ex-frontman. A outra fez sua parte, levando meu amigo e ex-colega de faculdade de Direito, Oswaldo Yves Passarell, ao Capital Inicial. Olha como são as coisas: enquanto o vocalista Dinho queria soar mais pesado com seu projeto solo Vertigo, Oswaldo estava no auge do sucesso com o Viper mas ficava mais preocupado com as provas da faculdade do que com qualquer outra coisa. Chega de divagações, prometo que vou parar de entregar alguns segredos por aqui...

Bem, como diria aquele narrador esportivo, "o tempo passa", mas os objetivos da emissora de atingir um público jovem foram plenamente atingidos. Os profissionais que por lá passaram hoje têm grande respeito na mídia brasileira. Merecidamente, diga-se. E mais, também não seria exagero dizer que a primeira emissora de TV segmentada do país salvou a vida do meu amigo João Francisco Benedan. Se o saldo da NTV é amargo para quem gosta de Heavy Metal, pelo menos nesta leva um dez de dimensões "gordas".

Ah, antes dos parabéns, não poderia deixar de lado uma curiosidade. Apenas cinco dias depois de entrar no ar pela primeira vez há vinte anos, nascia o hoje ator e cantor Fiuk, digno representante do atual momento da NTV. Parabéns. E basta.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

'Brasil Heavy Metal': lançamento mundial do clipe da música tema do filme



Os fãs do Metal brasileiro acabam de ganhar um presente: está no ar o aguardado videoclipe da música tema do longa-metragem "BRASIL HEAVY METAL", com a participação de dezesseis vocalistas do Heavy Metal brasileiro dos anos 80 que, juntos, cantaram o tema com toda garra e emoção.

O diretor do filme, Ricardo "Micka" Michaelis, explica como se deu a ideia desta inédita união: "Em uma certa manhã recebi uma das músicas que farão parte do CD/vinil duplo do projeto 'BRASIL HEAVY METAL'. Era a canção do Stress. Em meio a outras atividades, segui escutando e em menos de um minuto já estava paralizado. Confesso que a emoção tomou conta de mim."

A sonoridade e a letra fizeram o diretor reviver todos os sabores daqueles mágicos anos 80, quando tudo era uma grande descoberta. "Liguei para meu amigo China Lee, vocalista do Salário Mínimo, e coloquei a música para ele ouvir mesmo por telefone", conta. "Ele imediatamente disse: 'Cara, vamos todos cantar essa música!' E aí fizemos a loucura...", completa.

Tendo como base musical a gravação original do Stress, a produção do filme realizou várias sessões de gravação em São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, contando com a presença de vocalistas brasileiros que representam a identidade do Metal dos anos 80. Além disso, um cenário exclusivo foi desenvolvido e transportado para os estúdios, mantendo o padrão e unidade. "Foram momentos mágicos", revela Micka. "Alguns vocalistas já não estão mais em atividade, mas isso pouco importava. Vi no olhar de cada um o quanto significou ter vivido e ajudado a construir essa história", completa.

Os vocalistas que participaram das gravações foram os seguintes:

Andre Matos (Viper, Angra e Shaman)
Bozó (Overdose)
César "Cachorrão" Zanelli (Centúrias)
China Lee (Salário Mínimo)
Flávio Ferb (Vírus)
Jack Santiago (Harppia)
Julio Michaelis Jr. (Santuário)
Lone (Angel)
"Lucky" Luciano (Metalmania/Robertinho de Recife, X-Rated)
Marcello Pompeu (Korzus)
Marielle Loyola (Volkana)
Otávio Augusto (Taurus)
Paulinho (Witchhammer)
Paulinho Heavy (Inox)
Roosevelt "Bala" (Stress)
Tavinho Godoy (Metalmorphose)

O clipe foi produzido em FULL HD e tem versões em cinco idiomas, com legendas em japonês, espanhol, inglês e alemão. "O espírito, garra e entrega sensibilizou a todos e tenho certeza de que os fãs sentirão a verdadeira energia destes guerreiros. Por isso, queremos realmente fazer a maior corrente metálica que o Brasil já viu! Vamos espalhar essa energia para, juntos, atingirmos 1 milhão de views!", finaliza o diretor do filme que será o mais fiel documento histórico sobre o surgimento do Heavy Metal no Brasil na década de 80.

sábado, 7 de agosto de 2010

Bathory: a magia permanece

Após ouvir mais um habitual “Ricaaaaaaardo, telefone!!!”, proferido diariamente por minha mãe, atendi a ligação. “Fala Slayer! Chega aqui em casa que comprei um disco importado daquela banda que parece Venom”, disse meu amigo Claudio Fortuna. “Pô, legal! Qual disco é?”, indaguei. “Um que chama ‘Under The Sign Of The Black Mark’ e a capa é muito legal”, respondeu Claudio. Nem lembro o que estava fazendo naquela hora em casa, mas saí dizendo que tinha um “compromisso inadiável”. Afinal, estava prestes a ouvir o novo trabalho da “banda que parece Venom”, da “banda de um cara só”, da “banda do disco com a capa do bode”...

A ligação com o Bathory era grande desde o primeiro contato que tive com a banda, no lançamento do EP autointitulado de 1984. Lembro perfeitamente quando Serginho – hoje advogado de renome nacional – e Duda, amigos do time de futebol de praia do Guarujá, compraram “o disco do bode” importado e me enviaram pelo correio a gravação em fita cassete por fonopostal (!). É, quem reclama hoje que o “link está fora do ar” não faz ideia do que fazíamos para ouvir algo novo.

Também me recordo de ver o Paulinho “Pedrinho”, que fazia parte do time de basquetebol do clube Paineiras do Morumby na categoria do Conrado Tabuso, um dos editores do fanzine DeathCore, usando quase que diariamente a camiseta da “banda do bode”, com a capa do EP estampada. Nós até brincávamos que não íamos comprar a camiseta porque senão estaríamos “vestidos de Paulinho”.

Após os treinos e jogos do Paineiras – ou “Parna”, como chamávamos –, naquela fila para pegar o lanche, invariavelmente vinha o papo de quem era melhor – Bathory, Venom, Celtic Frost ou Hellhammer? Nunca quis entrar tão a fundo nessas discussões. Afinal, curtia da mesma forma todas estas bandas, mas sempre falava as mesmas coisas: “Ah, a música ‘Necromansy’ é a melhor do Bathory!” ou “O Venom que começou com isso tudo! Duvido que o Quorthon não tenha se inspirado na ‘In League with Satan’ para fazer a ‘In Conspiracy with Satan’”… Bem, eu falava tudo isso, mas bem lá no fundo eu já sabia que a minha preferida dentre estas era Celtic Frost mesmo. Era, ainda é e acredito que sempre será.

“Under The Sign Of The Black Mark”, o álbum que Claudio Fortuna e eu estávamos ouvindo pela primeira vez, era o terceiro da carreira do Bathory e foi lançado naquele mesmo ano, 1987. Passou o lado A, passou o lado B, mas a música que imediatamente curtimos foi a “Woman Of Dark Desires”, dedicada a Elizabeth Bathory. Ficou no ar a questão: “Quem seria aquela mulher?”... Como não havia internet, deixamos pra lá. Tempos depois, fui consultar algumas enciclopédias que tinha em casa – Barsa, Tudo... – e descobri que se tratava da Condessa Elizabeth Bathory.

O já falecido músico sueco Thomas "Quorthon" Forsberg (17 de fevereiro de 1966 — 7 de junho de 2004) inspirou-se em Erzsebet Báthory para o nome de sua banda. Nascida em 1560, filha de pais de famílias aristocráticas da Hungria, Elizabeth cresceu numa época em que as forças turcas conquistaram a maior parte do território húngaro, sendo campo de batalhas entre Turquia e Áustria.

Como conviveu com todo o tipo de atrocidades quando criança, Elizabeth desenvolveu um alto grau de sadismo. Mais tarde, se tornou uma das mais belas aristocratas e quem a via jamais poderia imaginar que, por trás daquela atraente mulher, havia um mórbido prazer em ver o sofrimento alheio. A Condessa ganhou a fama de ser "vampira" por morder e dilacerar a carne de suas criadas.

Casada com o Conde Ferenc Nadasdy, Elizabeth teve três filhas, Anna, Ursula e Katherina, e um filho, Paul. Após a morte de seu marido em 1604, mudou-se para Viena e daí para frente seus atos tornaram-se mais pavorosos e depravados. As investigações sobre os assassinatos cometidos pela Condessa começaram em 1610, ano em que foi presa e julgada.

Em janeiro do ano seguinte foram apresentadas como provas algumas anotações escritas por Elizabeth, contando com aproximadamente 650 nomes de vítimas mortas pela acusada. Seus cúmplices foram condenados à morte e a Condessa à prisão perpétua. Elizabeth foi presa num aposento em seu próprio castelo, sem qualquer contato com o mundo externo. Vivendo fechada num quarto, sem portas e janelas, apenas com uma pequena abertura para passagem de ar e comida, faleceu a 21 de agosto de 1614.

Não sou cinéfilo e não consigo guardar nomes de filmes e de atores que vi na semana passada, mas uma boa dica para se ter uma ideia de como foi a vida de Elizabeth é o filme “Bathory” (“Condessa de Sangue”, no Brasil), lançado este ano. Mesclando ficção e realidade, o filme dirigido por Juraj Jakubisco mostra como Elizabeth Bathory se tornou uma lenda. No elenco, Karel Roden, Vincent Regan, Haws Matheson, Deana Horváthová e Franco Nero. Coloquei por colocar, já que não faço a menor ideia de quem sejam estes atores, OK?

Os anos passaram, os nossos gostos musicais foram se ampliando, mas aquela magia em relação ao Bathory permaneceu – pelo menos pra mim. Quando montei a banda Midnight com o vocalista Roger Lombardi, sabia da admiração dele em relação a estes mesmos grupos. Chegamos a gravar um CD com o Sunseth Midnight e quando ele saiu para montar o seu próprio projeto, veio com o nome Goatlove – goat que, na tradução literal, significa bode (ou cabra). O som da banda não tem nenhuma ligação com o Bathory, mas com o The Cult, que também tem seu disco “da capa do bode” e outro intitulado “Love”. Entretanto, bastam cinco minutos de papo com ele para perceber que o Bathory é uma referência, mesmo que implícita, assim como o Celtic Frost, Hellhammer, Venom e tantos outros. É, parece que a magia em relação ao quarteto “Bathory-Venom-Celtic Frost-Hellhammer” perdurará.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Obrigado, Ratt!

Hoje em dia, quando penso que troquei cinco discos de vinil do AC/DC para pegar um do Dark Angel tenho consciência de que não fiz um bom negócio. Não que o Dark Angel seja ruim, especialmente porque ainda tenho o tal disco e também a versão em CD, mas sinto falta dos meus álbuns de bandas "normais", das clássicas, aqueles lançamentos que eu mesmo chamo de "babas". Porém, no auge do radicalismo e da descoberta das bandas mais extremas e "porrada", para mim não havia espaço para curtir som leve. Eram dez horas de Slayer por dia e algum tempo para outras como Celtic Frost, Voivod, Sodom, Venom, Bathory, Possessed e por aí vai.

Já comentei este assunto na "Coluna do Batalha" mas, como "Batalha Slayer", cheguei ao cúmulo de chamar várias bandas que hoje curto demais de "Falso Metal", algo que meu irmão, Frederico, certamente irá me zoar até meus últimos dias de vida. Discos com teclado, saxofone, metais e bateria eletrônica, eu descartava sem sequer ouvir – lia as informações da contracapa ou do encarte e não comprava. Eu sei, você também já ouviu a "máxima" mais imbecil do mundo: "Não ouvi e não gostei".

A vida seguia assim, mas toda vez que escutava riffs de um certo grupo norte-americano que fazia muito sucesso no Hard Rock, eu parava para prestar atenção. Mas não passava disso. Alguns outros amigos, bem menos radicais ou que nem chegaram a entrar a fundo no Thrash/Black/Death Metal, já curtiam aquela banda com entusiasmo. Sempre falavam a mesma coisa: "Batalha, não é possível que você não curte essas bases de guitarra!" Como andava em uma turma cheia de gente que estava esperando um "deslize" para fazer chacota na frente de todos, nunca dei o braço a torcer. Se alguém ficasse sabendo que você gravou, mesmo que no final de uma coletânea, uma música "fora do esquema", estaria perdido. Era um mês de chateação, no mínimo.

Então, certa vez, fui à casa de um outro amigo que ouvia Slayer como eu, o Marco Antonio, para gravar alguns vídeos de shows e videoclipes, outra prática bastante comum nos anos 80. Juntar dois vídeos para gravar era uma coisa que aproximava os fãs e, invariavelmente, criava amizades. Pois bem, estava lá gravando vídeos piratas ao vivo – um deles era aquele do Slayer na Holanda na fase "Show no Mercy" –, e então chegou um outro amigo que tocava guitarra, o Eduardo. O cara só falava na tal banda. Era Ratt pra cá, Ratt pra lá. E falava de um dos guitarristas, Warren DeMartini. E falava do vocalista, Stephen Pearcy...

Quando já estava ficando de saco cheio, falei para ele: "Tudo bem, meu. Coloca essa sua fita, vai." E então ouvimos os riffs iniciais da "You're In Love", faixa de abertura do álbum "Invasion Of Your Privacy". Mais uma vez eu pensei comigo: "Legal!" Também pudera, a trinca de abertura desse disco é fenomenal, seguindo com "Never Use Love" e "Lay It Down".

Só sei que de "legal" em "legal", acabei gravando aquela fita dias depois. Na semana seguinte, comprei o disco "Invasion Of Your Privacy" e nas seguintes os outros que tinham saído no mercado nacional. Quando me perguntavam se eu estava "curtindo poser", respondia: "Sim, mas só o Ratt." Até meu amigo Claudio Fortuna, que ouvia as mesmas bandas mais extremas, mas tinha uma cabeça mais aberta, se rendeu: "O que me irrita é que eles ficam com 'love' pra cá, 'love' pra lá, mas também gostei. É legal esse disco, pode gravar pra mim."

Como sempre uma coisa leva à outra, fui percebendo que estava achando legal demais e então comecei a recuperar o tempo perdido. Como também fora apresentado ao Dokken, a resposta àquela pergunta ia tendo bandas adicionadas a cada semana: "Sim, estou ouvindo Hard, mas só o Ratt e o Dokken." Pensa só na cara irônica do meu irmão, Frederico, tirando sarro diariamente, entrando no meu quarto e falando: "Hummm, curtindo rockinho falso Metal, é?"...

O Ratt não só abriu minha mente ao Hard Rock – o poser, o farofa, o hair metal – e às hoje chamadas 'hair bands', mas indiretamente me levou à redescoberta das bandas que eu havia "abandonado", como o Triumph (um crime!), por exemplo. E mais, me ajudou a aceitar o que antes era quase "proibido". Foi como sair da prisão.

Estava livre. Voltei a ouvir, curtir, ler e estudar sobre as grandes e as mais obscuras bandas dos anos 60 e 70 e "até" Pink Floyd, mesmo com muito teclado, piano e saxofone (!). Aceitei o The Doors, que antes odiava porque o teclado tinha som de "órgão de velho"... Assim, além de buscar outras novidades do Thrash e da música extrema – como o Coroner, que gravei dezenas de cópias da demo-tape "Death Cult" aos meus amigos –, fui descobrindo bandas e vibrando novamente com os sons outrora considerados "leves demais" por mim. Por outro lado, ninguém mais queria ouvir minhas coletâneas quando saíamos de carro ou viajávamos. Ficava todo mundo comentando: "Pô, Batalha, você é louco! Como consegue gravar Ratt, Sodom, Bad Company, Foghat, Kiss, Judas Priest, Thin Lizzy e Kreator na mesma fita?"...

Infelizmente, nunca cheguei a ter uma banda de Hard Rock, nem de Thrash Metal, mas embora o Cizania - então formado por Adalton Ribeiro (guitarra), Marcelo Fanin (baixo) e Eric Yañez (vocal) - tocasse composições próprias fincadas no Heavy Metal Tradicional, certa vez nos apresentamos no encerramento do festival de música da escola estadual Professor Alberto Levy, localizado na av. Indianópolis, local onde vota o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O festival era um outro grande ponto de encontro de amigos da região e onde se juntavam as turmas que andavam com as bandas Centúrias, Vírus e Cérbero. Pois bem, aquela foi a única vez que toquei Ratt na vida, pois nosso set list contava com a música "What You Give Is What You Get", faixa do álbum "Invasion Of Your Privacy". Sei que meus amigos Macarrão e Leão, e todo pessoal que andava com eles, vibraram durante a execução. Para todos foi uma grande surpresa, porque até hoje não é muito comum uma banda tocar cover do Ratt.

Você sabe (ou vai saber um dia), cada um tem o seu "Ratt" na trajetória musical, mas confesso que se não fosse por esta banda talvez eu não teria condições de trabalhar escrevendo sobre música. Por tudo isso, só posso dizer: OBRIGADO, RATT!

OK, agora só falta vir tocar no Brasil.

Post relacionado:
http://colunasleeversbatalha.blogspot.com/2008/12/basquetebol-e-metal-deathcore-zine.html


Fotos:
Discos: Reprodução
Banda: juancroucier.com

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Paulão Thomaz: 50 anos de Rock

"Tenho muito orgulho de ter ajudado a começar tudo isso. Naquela época (anos 80) era tudo mais inocente e amador. Hoje em dia, as bandas não se interessam em ajudar as outras, é cada um por si" - Paulão Thomaz

"Oi, você pode chamar o baterista do Centúrias, o Paulão, que vai tocar aí hoje?", perguntei à recepcionista do Teatro Mambembe. "Quem quer falar?", seguiu a atendente. "Aqui é o Ricardo Batalha, que vai fazer a filmagem do show". Quando falei para ela esta última frase eu não tinha a menor ideia se iria ou não filmar aquele show. Já havia filmado um da banda A Chave do Sol no Teatro TBC no final de 1986 e, apesar de ter visto várias apresentações do Centúrias, não era amigo pessoal de nenhum integrante da banda. "Oi, quem fala?", indagou Paulão. "Que filmagem é essa?", prosseguiu. Expliquei a situação e ele respondeu com grande entusiasmo: "Claro que pode vir aqui filmar nosso show! Vou colocar seu nome na porta, mas chegue um pouco mais cedo, senão já viu... Até mais." É, Paulão já sabia que a entrada no Teatro Mambembe não era fácil, coisa que só fiquei sabendo depois desta estreia.

Ao me ver pronto para sair com o visual headbanger anos 80 em plena segunda-feira, minha mãe logo falou com aquela cara de espanto: "Mas hoje é segunda-feira, o que você vai fazer com esta câmera?!" Respondi que ia filmar um show importante, pedi o carro emprestado e esperei. "Tudo bem. Pode ir, mas cuidado", disse minha mãe. Comi alguma coisa, peguei o carro e rumei à rua do Paraíso, onde ficava o Teatro Mambembe. Confesso que aquela ladeira não era das mais fáceis para um "carta nova" de 18 anos de idade fazer uma "baliza galã" usando o freio de mão direitinho. Bem, aquilo era o de menos. Afinal, eu ia registrar um show do Centúrias em vídeo!

Ao chegar na porta do Mambembe, aquele meu "velho amigo" metido (já citado algumas vezes aqui neste Blog) mostrou o poder de sua empáfia pela primeira vez. "Cara, seu nome não está na lista. Não sei de filmagem nenhuma. Espera aí do lado". Algum tempo depois, ele veio e falou: "Ninguém está sabendo disso, meu. Com quem você falou?". Respondi que tinha combinado tudo com o Paulão. De repente, o cara mudou. "Ah, com o Paulão?! Espera aí então que eu vou ver com ele." Bastaram poucos minutos para ter minha entrada autorizada.

Fui então ao encontro do Paulão, que me recebeu bem e me apresentou a todos os músicos, roadies e técnicos de som e luz que estavam lá. Contei para eles que tinha visto alguns shows da banda com a formação anterior, da fase "Última Noite". Aí, Paulão perguntou: "Mas por que você escolheu filmar o Centúrias?". Ele ouviu a resposta mais óbvia de todas: "Porque eu gosto!" Todos riram.

Fiz a filmagem do show, peguei o contato do Paulão e disse que entraria em contato para dar a cópia da fita (VHS). Saí do Mambembe e tive uma surpresa nada agradável, pois haviam quebrado o vidro e levado o toca-fitas do carro. E aí, como explicar para seus pais que ir a um evento de Heavy Metal numa segunda-feira em São Paulo era tranquilo. Será que tudo aquilo que eu apregoava em casa seria entendido depois disso? Por sorte, meus pais entenderam.

Dias depois, Paulão chegou em casa de bicicleta. Meu irmão Frederico, incrédulo, falou: "É o Paulo Thomaz do Centúrias que tocou a campainha?" Respondi que sim e fui lá falar com ele. Entreguei-lhe a fita e desde então Paulão se tornou um amigo.

Aí, fui convidado para sua festa de 30 anos, realizada no Black Jack Bar. Lembro-me como se fosse hoje de todos detonando o bolo de chocolate e de ter comentado com vários amigos que, assim como eu, tinham 21 anos de idade em média: "O Paulão está fazendo 30 anos! Ele é muito mais velho, mas nem parece". Todos concordaram e seguiram mandando ver na cerveja, na caipirinha e no alexander, no caso do Fanin. Tudo bem, o Fanin vai dizer que não lembra, mas ele tomava isso.

Os anos passaram e Paulão se tornou um irmão mais velho. Quem sabe o real significado de "brother of Metal", entende. Cheguei a ir em várias festas e encontros "etílicos-metallicus" que ele organizava em sua casa/estúdio, além de fazer várias matérias sobre suas bandas para a revista. Numa destas, ele chegou a comentar e rir: "Pô, Batalha, você vai tão a fundo que colocou até a data do meu nascimento. Agora ferrou, todo mundo vai saber quantos anos eu tenho de verdade", divertiu-se.

Já que todo mundo sabe, no último dia 22 de julho, Paulão Thomaz completou 50 anos de idade e comemorou a data com festa no Blackmore Rock Bar, em São Paulo. O bolo, mais uma vez, estava fenomenal. E olha que quem me conhece sabe que raramente eu como doces, mas bolo da festa do Paulão é tradição. Bolo sim, mas caipirinha de balde nunca mais!

Reencontrar velhos amigos e relembrar histórias de tempos que não voltam mais é uma das minhas coisas preferidas. Porém, naquela ocasião, eu, o Fanin, os outros amigos fãs de Metal e músicos que tocaram ou tocam com Paulão, estavam lá para se divertir e, principalmente, reverenciar uma figura ímpar do Rock brasileiro. A legião de amigos e fãs que foram prestigiar o evento viram shows do Lynyrd Skynyrd Tribute, Grand Funk Railroad Cover (Banda Máquina 70) e George Thorogood Tribute (Banda Garbage Truck). Paulão, obviamente, tocou. Desta vez, foram os grandes clássicos do Lynyrd Skynyrd, executados com a mesma pegada e garra que demonstra desde o começo de sua carreira com o Centúrias. Por sinal, o vocalista Cachorrão me mostrou em primeira mão nesse dia a música inédita que gravaram para o documentário "Brasil Heavy Metal". Quem curte o disco "Ninja", pode ter certeza que também vai adorar.

Imagine quantas mudanças e novas tendências Paulão Thomaz vivenciou desde quando começou a curtir Heavy Metal ouvindo os primeiros discos do Black Sabbath. Ele até tem seus momentos 'deprê', em que acha que tudo está errado, mas sua disposição é maior que a de um novato. Passam-se os anos mas suas atitudes, o ânimo e a garra em tocar Rock permanecem intactos. Aquele garoto que, em 1975, ficou deslumbrado ao ver um show da Patrulha do Espaço demonstra a mesma alegria e até mesmo uma ponta de ingenuidade que todos nós perdemos com o passar dos anos.

O jeito vibrante de Paulão é notado tanto quando ele fala do primeiro disco que comprou na vida – uma coletânea do Slade chamada Sladest –, como quando conta sobre as gravações recém finalizadas para o quarto álbum do Baranga, grupo que ajudou a criar em fevereiro de 2000. Além disso, sente o mesmo orgulho em usar camisetas com estampas de bandas que curte, colete de couro, jaqueta com patches e pins, como quando comprou a sua primeira camiseta – "uma do Jimmy Page – na Stoned Shirts, famosa loja de camisetas da rua Augusta nos anos 70. Assim é o senhor Paulo Thomaz Soeiro Rodrigues Alves. Portanto, se você encontrá-lo agitando na frente do palco em um show cover do AC/DC ou do Carro Bomba, saiba que é um entusiasmo real. E ele vai lhe falar, com uma garrafa de cerveja na mão: "Isso sim é Rock'n'Roll!"

Fotos de Arquivo do site www.centurias.com.br

domingo, 25 de julho de 2010

"Esses Voivod"

Em mais um domingo de sol no Parque da Aclimação, aquela edição da "Praça do Rock" prometia. Afinal, estariam no mesmo palco bandas como Centúrias e Abutre. Antes dos shows, enquanto os mais novos curtiam a discotecagem cheia de novidades, os da velha guarda não viam as mudanças no Heavy Metal com grande entusiasmo. "Agora todo mundo só quer saber desses 'Voivod'. Não entendo. Pô, vou falar com o Dalam. Eles bem que poderiam rolar um Aerosmith, um UFO ou um Kiss", dizia João Carlos.

O funcionário do escritório de advocacia de meu falecido pai não conseguiu achar Dalam Junior, mas seguiu com seu inconformismo. "A Woodstock já está começando a divulgar demais essas bandas aí. Rica, desse jeito a moçada vai esquecer de quem surgiu antes. Eu não te mostrei Voivod, mas UFO, Aerosmith, Kiss, Judas Priest, Scorpions, Iron Maiden, né?", perguntava Joãozinho, um grande incentivador para me colocar nesse mundo da música pesada e que também era chamado por outros de Sujeirinha ou Johnny Dillinger.

Ao lado de Celso Barbieri, que apresentava os eventos, Dalam Junior (baixista do Mercúrio) foi idealizador e um dos responsáveis pela realização dos eventos na concha acústica do Parque da Aclimação, que tinha apoio do Jornal do Cambuci. Tenho grande respeito e admiração por eles pela perseverança em transformar aquele espaço em um grande ponto de encontro de rockeiros. Basta você imaginar que, no último domingo de cada mês, bastava ir ao Parque da Aclimação para estar rodeado de grandes árvores e todo o verde do local, tendo atrás um belo lago e à sua frente um palco com sistema de som potente, com as melhores bandas de Rock/Metal da época tocando. Ah, sim, sem pagar um centavo.

João Carlos "Sujeirinha" não se conformava, mas eu tentava argumentar: "João, eu gosto dessas bandas novas. Não sei explicar direito, mas elas são bem mais agressivas e eu acho isso legal!". Ele ficava cada vez mais impaciente: "Vou falar com o Orlando para ver se ele muda esse cara do som! Ou mudam ou nunca mais vou chegar cedo aqui!", falava o sempre calmo e bem humorado João Carlos no alto de seu momento de irritabilidade.

Joãozinho saiu do local onde estávamos e demorou para voltar, já que estava procurando Orlando Lui Jr., o já falecido baixista que passou pelas bandas Gozo Metal e Rock da Mortalha e que tinha grande influência entre os organizadores da Praça do Rock. "O Abutre bem que podia começar o show logo para a moçada ouvir som legal e parar com esses 'Voivod'!", seguia o excepcionalmente irritado Joãozinho.

Os shows do Abutre e Centúrias foram excelentes, mas aquele não era mesmo o dia de Joãozinho, pois bastou o Abutre entrar no palco para ele disparar: "Tá vendo? São os 'Voivod' no som e agora os Abutre me aparecem com lencinhos no braço?! Mas o que está acontecendo?!", indignava-se. Como não sentia absolutamente nada em relação àquilo, curti cada momento daquela bela tarde de domingo. Joãozinho, por sua vez, saiu antes do final dos shows.

Na semana seguinte, após passar pela Woodstock Discos, resolvi ir à Galeria do Rock. Joãozinho falou tanto, mas tanto, que resolvi comprar uma fita cassete com a gravação do disco "War And Pain" (1984) do Voivod – algo muito comum naquela época em que os discos importados eram caríssimos e difíceis de se encontrar por aqui. Comprei, gostei e me tornei fã. Porém, mal sabia eu que, muitos anos depois, viveria o papel de João Carlos. Eu sei bem o que ele sentiu e passou naquele domingo. Depois eu conto...


Fotos: Reprodução / Foto Dalam Jr.: Arquivo Brasil Heavy Metal

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Lá se vai mais um batalhador

O fotógrafo e editor do fanzine Metal Gods, Francisco Itamar M. Brasileiro - conhecido na cena paulistana do Heavy Metal como Jaji - faleceu no último dia 18 de maio. Fica aqui o agradecimento pelo árduo trabalho de Jaji como fotógrafo e por ter acreditado em seu sonho, que começou nos anos 80 com o fã-clube Metal Gods.

Fundador e editor do Metal Gods, o incansável Jaji foi um ativista em prol do Heavy Metal, tendo organizado festas e abaixo-assinados para que bandas estrangeiras viessem ao Brasi, como o Manowar. Suas fotos apareceram em publicações de renome, como a extinta Metal.

Lembro-me como se fosse hoje quando eu e meus companheiros do fanzine DeathCore estávamos em busca de fotos de bandas brasileiras para incluir em uma edição. Fomos até a Woodstock Discos e o dono da loja, Walcir Chalas, disse: "Se vocês querem fotos, só vão conseguir com o Jaji". E lá fomos nós para o bairro da Liberdade para encontrá-lo. Com toda a humildade, Jaji se mostrou animado por estarmos editando um fanzine e nos ofereceu o material que tinha disponível, somente pedindo que colocássemos seu crédito.

Quase na mesma época, Celso Barbieri organizava eventos no Espaço Mambembe, no bairro do Paraíso, em São Paulo, e como eu fazia filmagens dos shows sempre cruzava com Jaji antes dos eventos. Ele com sua velha Nikkon e eu com minha então novíssima câmera de VHS Panasonic. Costumávamos falar sobre a força e a garra das bandas brasileiras e certamente seus ideiais eram os mesmos. Seguimos caminhos diferentes mas, anos depois, no início da revista Roadie Crew o "acelerado" Jaji se mostrou solícito e chegou a nos ajudar com suas fotos.

Felizmente, o guitarrista do Santuário e Extravaganza Ricardo "Micka" Michaelis - diretor do documentário "Brasil Heavy Metal" - não esqueceu da luta de Jaji pelo cenário do Metal brasileiro e gravou uma entrevista com o fotógrafo, que agora terá um caráter ainda mais especial em sua memória.

Crédito/Foto: Brasil Heavy Metal


domingo, 16 de maio de 2010

Conexão com "Deus": Ronnie James Dio

O Heavy Metal está de luto. O vocalista Ronnie James Dio (Ronald James Padavona) morreu na manhã deste domingo (16 de maio), aos 67 anos, após perder a luta contra um câncer estomacal.

A morte de Dio, que ficou mundialmente famoso por cantar em bandas como ELF, Rainbow, Black Sabbath e Heaven & Hell, foi confirmada por sua esposa e empresária, Wendy Dio. "Hoje meu coração está partido, Ronnie morreu às 7h45. Muitos amigos e familiares puderam dizer adeus antes dele morrer pacificamente", postou Wendy no site oficial de Dio (ronniejamesdio.com).

No mesmo comunicado, a esposa de Dio diz que ele sabia o tanto que todos o amavam e agradece o apoio desde que o vocalista soube da doença, em novembro de 2009. "Por favor nos deem alguns dias de privacidade para lidarmos com essa terrível perda. Por favor saibam que ele os amava e sua música vai viver para sempre", finalizou Wendy Dio.


MINHA CONEXÃO COM DIO
Quando peguei aquela nova edição do fanzine do fã-clube de Heavy Metal Rock Brigade, em meados de 1984, pensei: "Que legal, o Dio ficou entre os primeiros na votação dos melhores do ano. Acho que vou escrever para ele pedindo uma foto autografada." A ingenuidade do ato de um fã, que começou a ouvir Heavy Metal justamente por causa do Black Sabbath, falou mais alto.

Estudava inglês e redigi a carta em uma folha de caderno mesmo. Depois daquela tentativa de contato com a revista francesa Enfer, sem sucesso, no fundo tinha esperança de obter resposta de Dio, mas sabia que seria quase impossível. Afinal, nem a banda Dio ou o Black Sabbath haviam tocado no Brasil. Apenas Ozzy Osbourne estava confirmado para tocar por aqui pela primeira vez, no "Rock In Rio", realizado em janeiro de 1985. Fui ao correio do centro de São Paulo e mandei a carta endereçada a Wendy Dio, esposa e empresária do vocalista.

Quase na mesma época, a extinta revista SOMTRÊS veio com uma promoção, sorteando cópias do álbum de estreia do Dio, "Holy Diver". Mais uma vez, fui em frente. Recortei o selinho no canto do anúncio da promoção e mandei a carta. A esperança era a mesma de receber a resposta do Dio. Havia, mas era pequena...

O tempo passou e quand
o quase nem lembrava que havia enviado tal carta, minha mãe deu um grito: "Ricardo, o carteiro deixou um evelopão aqui em seu nome!". Desci correndo e quando abri era o "Holy Diver". Foi a primeira vez que escrevi para uma promoção. E ganhei!... E era do Dio!...

Passado algum tempo, mais uma vez ouvi o berro: "Ricardoooooo!". Bem, se houvesse uma competição de quem grita meu nome mais alto, minha mãe certamente ganharia até do Dio, Rob Halford, Bruce Dickinson, Geoff Tate, Glenn Hughes, Ian Gillan...

Era do correio. Carta do exterior. Não lembrava mais da carta ao Dio, mas quando vi o remetente Niji Productions Inc., aquele rosto carrancudo deu lugar a um enorme sorriso, com a boca ficando maior que a do Coringa, do Batman... Abri-a em menos de 5 segundos e lá estava a foto autografada com os dizeres: "Magic, from Ronnie James Dio". Só pensei comigo: "Consegui!".

A remetente, Sheila, que era responsável pelo Dio Fan Club, ainda escreveu que ficara contente por saber que Dio tinha se saído bem nos charts brasileiros. À época que recebi a carta, escrita em 25 de junho de 1984, a banda Dio estava perto de lançar seu segundo álbum, "The Last in Line", que saiu oficialmente em 13 de julho e se tornou meu preferido, ao lado de "Holy Diver".

E qual não foi a minha surpresa quando o programa "Fantástico" (TV Globo) exibiu com exclusividade o clipe da faixa título, "The Last in Line". O marketing para o primeiro "Rock In Rio" estava forte em relação ao Heavy Metal. Lembro que estávamos na casa de meus avós paternos, o Professor Sóter e a Dona Carmen, como costumávamos fazer aos domingos. Saíamos de lá quase sempre um pouco depois dos "Gols do Fantástico", que eu, meu irmão, o "Seu" Batalha, meu Tio Bosco e o Professor Sóter, não perdíamos. Imagine o espanto quando o apresentador Cid Moreira, com seu conhecido vozeirão, anunciou: "Agora, o musical do ex-cantor do grupo inglês Black Sabbath: Dio". Meu irmão Frederico e eu ficamos paralisados, hipnotizados, enquanto o Professor Sóter, quase "pescando" em sua grande poltrona reclinável favorita, não entendeu nada.

Anos depois, já trabalhando pela revista Roadie Crew, tive o privilégio de entrevistar Ronnie James Dio em algumas ocasiões, além de Tony Iommi, Ozzy e Vinny Appice. Consegui, inclusive, não perder totalmente o lado romântico de fã e com ele fiz questão de pedir mais autógrafos e fotos, como a mais recente, na nova passagem do Black Sabbath pelo Brasil. Tudo bem, do Heaven & Hell...


ARQUIVO: ENTREVISTA

Se alguém disser que admira o vocalista Ronald James Padavona, talvez você não se dê conta de que a pessoa estará se referindo a um dos maiores astros do Rock e do Heavy Metal de todos os tempos: Ronnie James Dio. O norte-americano, que passou pelas bandas The Vegas Kings, Ronnie and the Rumblers, Ronnie and the Redcaps, Ronnie & The Prophets, The Electric Elves, The Elves, ELF, Rainbow, Black Sabbath, Dio e Heaven & Hell, fala nesta coletânea de entrevistas que fiz para a revista Roadie Crew sobre alguns pontos de sua carreira e algumas curiosidades.

Quando e por que Ronald James Padavona adotou o nome artístico de Ronnie James Dio?
Dio: Quando estava no Rainbow, gravando o primeiro álbum da banda, Ritchie me perguntou se eu tinha um nome no meio, ao invés de Ronnie Dio. Disse que sim e passei a adotar Ronnie James Dio. Mas quando tinha uns dez anos de idade e já estava com uma banda, claro que não era profissional, achava que meu sobrenome era muito longo e resolvi pegar Dio, que também é uma palavra em italiano, assim como é meu sobrenome. Só que eu não fazia a menor ideia de que aquilo significava Deus em italiano, pois havia copiado de um membro da máfia, que também se chamava Ronnie Dio. Aí, tempos depois, vieram me falar que eu estava me intitulando Deus. Só que não sou e nunca serei, não tenho nada a ver com isso, é apenas o nome (risos).

Você nunca teve aulas de canto, mas mesmo assim se tornou um dos mestres com seu talento para cantar e possui uma carreira respeitável. Como é viver apenas da música?
Dio: Tenho sorte por ter conseguido viver somente da música e sempre busquei isso minha vida toda. Nunca pensei que pudesse sobreviver financeiramente vivendo da música, mas não foi o dinheiro que me levou a optar por esta carreira e sim a paixão em estar com uma banda tocando para pessoas que gostam do que você faz. Quando comecei, sabia que esta seria minha profissão, mas não fiquei sentado pensando que um dia ia fazer isto. Simplesmente comecei e fui em frente. Sou um afortunado por conseguir fazer o que mais queria na vida, pois muita gente trabalha duro a vida toda em um emprego que odeia. Fui abençoado com o talento e também por ter uma grande quantidade de fãs que querem me ver.

Quando está em turnê, você gosta e tem o costume de examinar o local e fazer o 'soundcheck antes de entrar no palco para fazer o show?
Dio: Claro. Na maioria das vezes, fazemos um detalhado soundcheck. Isto também depende da qualidade do equipamento que você tem disponível em cada casa de shows. Às vezes, não é o apropriado e por isso a equipe leva mais tempo para deixá-lo ajustado.

Como é para você ter a "Ronnie Dio Way" na cidade em que cresceu, Cortland (EUA)?
Dio: É muito legal e mais ainda para os meus pais. Achei extraordinário que colocaram o meu nome naquela rua na cidade que nasci e cresci. Acho até estranho ver meu nome lá, mesmo depois de tantos prêmios que recebi durante minha carreira. Cada um que ganhei tem um sabor especial, mas este da rua é ainda maior.

Um de seus trabalhos favoritos é o Heaven And Hell, do Black Sabbath, mas sempre achei que você preferisse o Rainbow musicalmente, já que sempre faz questão de tocar muitas músicas nos shows com o Dio e cita a palavra "rainbow" nas suas músicas...
Dio: Não, o Heaven And Hell ainda é o meu preferido! E por diversas razões: primeiro, musicalmente, e depois pelos problemas que o Black Sabbath tinha passado e estava precisando voltar com tudo, pois fazia três ou quatro anos que a banda não fazia sucesso. Eu me senti gratificado por poder recolocar a banda no patamar que merecia estar com o Heaven And Hell. O Rainbow é completamente diferente, pois é um tipo de música que vem da cabeça de Ritchie Blackmore. No Sabbath nós todos trabalhamos juntos e a banda tinha uma sonoridade mais simples e que até me facilitava as coisas, na realidade. Criar melodias naquele padrão mais simples era até melhor para mim como vocalista, entende? E sempre gostei de compor e criar com o Sabbath, porque é mais pesado que o Rainbow e era mesmo isso que queria fazer!

Falando agora sobre o começo do Dio, quando você e o baterista Vinny Appice deixaram o Black Sabbath, em outubro de 1982, como chegaram aos outros músicos para a criação do grupo? Quando você sentiu que deveria seguir em carreira solo com o Dio?
Dio: Quando a minha saída do Black Sabbath foi confirmada, e o mesmo já tinha acontecido quando deixei o Rainbow - ambos grupos que sentia que ainda poderia contribuir muito mais, só que não tive escolha e não saí por opção minha -, decidi que seria hora de fazer algo próprio. Não queria mais que outros controlassem a minha vida. Musicalmente, sabia que estava maduro o suficiente para compor boas músicas. Claro que foi importante tocar com Ritchie (Blackmore) e Tony (Iommi), mas queria poder controlar as minhas ações. Vinny e eu saímos ao mesmo tempo do Sabbath e ele concordou comigo que deveríamos criar algo novo. Eu o conhecia bem e, além do mais, havia o fato de ele ser um ótimo músico. Então nós saímos em busca de um baixista e um guitarrista. Fomos para a Inglaterra e acabamos encontrando com Jimmy Bain e foi por intermédio dele que chegamos ao Vivian Campbell. Nos reunimos em um estúdio em Londres e tudo saiu muito bem, pois nos entrosamos logo de início. Vinny curtia tocar com Jimmy e, apesar de jovem, Vivian já era um brilhante guitarrista.

Quais foram as primeiras composições criadas para o Dio?
Dio: Holy Diver e Don't Talk To Strangers. Já tinha feito estas composições e mostrei-as para Vinny, Jimmy e Vivian assim que formamos o Dio. A partir dali as coisas foram saindo da melhor forma possível. Enfim, um momento mágico.

Você se lembra dos trabalhos e das gravações para o Holy Diver?
Dio: Nós trabalhamos arduamente para lançar um bom álbum. A experiência foi bem autoral, pois fizemos tudo do jeito que queríamos e que achávamos que iria funcionar. Aprendemos bastante coisa naquela produção, inclusive com nossos erros, alguns os quais até ríamos depois. Mas os acertos foram maiores. Veja, por exemplo, o som da bateria... Nós construímos uma sala gigante e ela parece que foi gravada ao vivo! Usamos também para o The Last In Line e isso funcionou bem para o kit da bateria de Vinny Appice. As outras coisas foram aqueles negócios de banda mesmo, com todos dando o máximo nos ensaios e na criação em si. Holy Diver não foi um álbum feito em meio a festas ou eventos paralelos. Foram coisas de trabalho, com toda aquela interação momentânea e espontânea que ocorre entre músicos que estão gravando.

Existe alguma música feita nas sessões de Holy Diver que foi deixada de lado?
Dio: Sim, há uma música, mas ela sequer foi finalizada. Apenas a deixamos de lado e eu a odiava tanto que certo dia cheguei ao ponto de destruir aquela fita. Mas nós nunca fomos de gravar algo a mais, somente quando éramos obrigados, como para o Japão, que sempre pede algum bônus. As músicas que gravamos em todos os álbuns foram aquelas que trabalhamos em cima.

E como foi para você - que carregava o peso de ser um ex-Rainbow e um ex-Black Sabbath - sentir uma resposta tão positiva e rápida para músicas como Stand Up And Shout, Holy Diver, Don't Talk To Strangers e Rainbow In The Dark?
Dio: Acho que as músicas falam por si. Elas têm qualidade e o álbum todo é bom. Mas claro que fiquei surpreso com aquela receptividade instantânea dos fãs. Eu realmente não esperava por uma resposta tão rápida e forte. Fiquei muito contente e confiante.

Como surgiu a ideia de tocar o álbum Holy Diver na íntegra e lançá-lo em CD e DVD (Holy Diver Live)?
Dio: A sugestão partiu de nosso agente na Inglaterra, que tinha pensado que poderia ser uma coisa bem interessante tocar o álbum inteiro ao vivo. O Deep Purple tinha feito isto com o Machine Head, o Queensrÿche com o Operation: Mindcrime e outras bandas também realizaram shows destacando um disco inteiro. Desta forma, senti que o projeto deveria ser levado adiante, ainda mais porque o Holy Diver é muito popular e por isso que, ao invés de tocá-lo somente na Inglaterra, acabamos por fazer uma turnê inteira com este apelo em cima do Holy Diver. A ideia sempre me pareceu legal e acredito que os fãs também aprovaram, especialmente porque muitas daquelas músicas não eram tocadas havia bastante tempo.

As apresentações da turnê "Holy Diver Live" trouxeram boas lembranças de seu passado, do início da carreira com a banda Dio?
Dio: Sim! Tudo foi especial, ainda mais porque o Holy Diver foi o primeiro álbum e o que obteve grande reconhecimento para a banda Dio. E não são apenas algumas poucas músicas boas, o disco inteiro é falado e por isso a receptividade dos fãs nos shows foi altamente empolgante para todos. Muitas pessoas nunca tinham nos visto tocando algumas daquelas composições, enquanto outros não as viam ao vivo fazia muito tempo, há mais de vinte anos... A reação foi muito boa, acredito que não somente pelo Holy Diver, mas também porque o set tinha duração de cerca de duas horas e meia, com outras coisas do Dio, do Rainbow e do Black Sabbath.

A arte da capa de Holy Diver apresenta um personagem que acabou virando mascote para o Dio. A ideia inicial era mesmo esta?
Dio: No começo seria apenas mais uma figura que faria parte de um todo na arte da capa. Queríamos mesmo ter uma pessoa e um outro personagem, além de um logotipo bem chamativo e que pudesse cativar de alguma forma os fãs de Metal. Com o tempo as pessoas passaram a se interessar mais e aquele personagem acabou se tornando a mascote, com "vida própria", um nome e sendo parte do Dio.

Por que deram o nome de Murray para a mascote?
Dio: 'Murray, the monster'... Achei que soaria mais monstruoso e, além disso, seria engraçado chamar de Murray aquela figura malvada...

Ainda sobre isto, o dragão que fazia parte do cenário na turnê do álbum Sacred Heart e era um dos pontos altos do show foi chamado de Denzil...
Dio: Na verdade, todo mundo o chama assim, mas seu nome é 'Dean, the dragon'. Por alguma razão, outra pessoa começou a falar que ele era o Denzil e aí pegou, mas o correto é Dean.

Já que estamos falando sobre curiosidades, muitos também dizem que o logotipo do Dio quer dizer Devil. Qual a sua opinião a respeito disso?
Dio: Não tem nada a ver e não foi intencional. Se você olhar de cabeça para baixo até pode parecer que é, mas não estudamos uma fórmula para que nosso logo fosse visto assim, com duplo sentido. Alguém, um dia, resolveu virar de ponta cabeça, ficou analisando e achou que Dio poderia querer dizer “Devil”, mas não tivemos nenhuma intenção de fazer isto.

E sobre o 'maloik', aquele sinal com os dedos - fechando a mão parcialmente e mostrando o dedo indicador e o mindinho - que tanto caracteriza o Heavy Metal. Você se lembra quando começou a fazê-lo?
Dio: É sempre bom ter alguma coisa que você pode repetir várias vezes e as pessoas aceitam. No meu caso, foi porque a minha avó era italiana e usava o 'Maloik', que a protegia contra o olho do mal ('evil eye'). Quando eu era criança, a via usá-lo com freqüência e, assim, desde a fase do Rainbow, comecei a fazer o sinal. Não foram tantas vezes, mas usei-o. Só que no Sabbath, quando eu queria fazer uma figuração de algo mais malvado, fazia o símbolo do 'evil eye' com as mãos. As coisas foram indo e em certo ponto as pessoas já até esperavam que eu fizesse aquele sinal para que eles repetissem e isso acabou se tornando algo mundial.

Este sinal tem conexão com o Egito antigo, onde o chamavam de 'evil eye sign' (o sinal do olho do mal), mas existe alguma ligação com a música Evil Eyes, do álbum The Last In Line, mesmo porque naquele álbum ainda consta a faixa Egypt (The Chains Are On)?
Dio: Entendo sua explanação, mas, com relação àquela música, apenas achei que o título Evil Eye seria interessante. Não fui tão a fundo e ela não tem esta ligação. Não foi nada além de um bom nome. Ela foi escrita a partir de algum filme, não me lembro direito. E a compus até certo ponto bem rápido, já que precisávamos apresentar uma nova música que tivesse certa conexão entre o Holy Diver e o The Last In Line e esta ficou perfeita.

A banda Dio iniciou a "Dream Evil World Tour” tocando em Irvine/CA (EUA), em um evento chamado "Children Of The Night", mas o que pode falar a respeito do projeto de mesmo nome, também chamado de "Hear’n’Aid 2"?
Dio: Será o mesmo projeto beneficente com um álbum nos mesmos moldes do Hear'n'Aid, que fizemos em 1985, para a instituição "Rock Relief For Africa". Teremos uma música completa, de longa duração, com muitos músicos convidados e envolvidos, com diversos vocalistas, como Bruce Dickinson, e também guitarristas. O resto do álbum terá material inédito de outras bandas, como Doro, por exemplo, que já confirmou sua participação. No começo do ano que vem com certeza ele começará a ser produzido.

Você acredita que terá tempo para trabalhar na segunda parte do "Hear 'N' Aid"?
Dio: Para mim é uma certeza que farei, mas ainda não tive tempo suficiente para efetivamente começar os trabalhos. Todo mundo está com a agenda abarrotada e, além disso, não vou compor algo de baixa qualidade, um lixo desprezível só para dizer que a segunda parte foi lançada.

Considerando que você já tocou ao lado de muitos músicos de renome, quem você gostaria de ressuscitar para integrar um novo projeto "Hear 'N' Aid"?
Dio: Sempre declarei em minhas entrevistas que o único músico que gostaria de dividir o palco e tocar junto seria o Jimi Hendrix.


RAIO-X - RONNIE JAMES DIO:
Nome: Ronald James Padavona
Data de nascimento: 10 de julho de 1942
Data de morte: 16 de maio de 2010
Local de nascimento: Portsmouth, New Hampshire (EUA)
Cidade onde cresceu: Cortland
Ascendência: Italiana
Primeiros instrumentos: Trompete e contrabaixo
Esporte praticado na infância: Baseball
Heavy Metal ou Rock And Roll?: "Heavy Metal para mim, mas é tudo parte do Rock And Roll..."
The Vegas Kings (1957): "O começo"
Ronnie And The Rumblers (1957-1958): "Começando a ficar malvado"
Ronnie And The Redcaps (1958): "Cabeças-de-vento"
Ronnie Dio & The Prophets (1961-1967): "Cabeças-de-vento em dobro"
The Electric Elves (1967-1972): "Excelente material"
ELF (1972-1975): "O real começo do que acabei me tornando"
Butterfly Ball And The Grasshopper’s Feast: "Divertido de fazer, ainda mais por ter Roger Glover"
Rainbow ou Black Sabbath?: "Difícil. Não dá para comparar opostos"
Niji Productions: "Minha vida, cuida dos meus problemas e dirige minha carreira"
Dehumanizer ou Mob Rules?: "Dehumanizer"
Ronald Padavona: "Apenas um cara normal, que vive como todo mundo"

Site: www.ronniejamesdio.com

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Nomes femininos no Rock, uma história de homenagens e lendas

Títulos de músicas com nomes femininos sempre fizeram parte do universo do Rock desde a sua criação nos anos 50. Os precursores acostumaram-se a prestar homenagens ao sexo feminino e estas poderiam tanto ir para seus casos amorosos, como para a mãe, a tia, a avó, a prima a cunhada ou, simplesmente, porque soava bem.

Em 1958, no mesmo ano em que Danny And The Juniors cantava "Rock And Roll Is Here To Stay, It Will Never Die", Chuck Berry emplacava o single Carol, cuja letra falava sobre o temor de um garoto que precisava aprender a dançar para não perder a sua amada Carol. Tempos depois, a música foi coverizada pelos Beatles e os Rolling Stones.

Eleanor Rigby
Passado o grande impacto ocorrido nos anos 50 com o surgimento do Rock’n’Roll, a cena musical viria a se impressionar nos anos 60 com a 'Beatlemania'. E uma das composições mais conhecidas do quarteto de Liverpool é Eleanor Rigby.

Segundo 'Sir James' Paul McCartney, Eleanor é o nome da atriz que contracenou com os Beatles no filme "Help!" (1965) e o complemento Rigby foi tirado de uma loja de conveniências. Só que foi cogitado que o título, na verdade, fora inspirado no nome de uma mulher sepultada em um cemitério situado perto da St. Peter's Church, justamente o local onde John Lennon e Paul McCartney haviam se conhecido em julho de 1957. Na lápide ainda existe uma menção a Father Mackenzie, que também consta na letra de Eleanor Rigby. Todavia, os as evidências sempre foram negadas por Paul McCartney.

Coincidência ou simples charme, o que se pode dizer é que os significados destes títulos com nomes femininos acabam quase sempre voltando para algo positivo. No Grammy Awards de 1966, os Beatles conquistaram o prêmio de melhor música por Michelle e Paul McCartney o de melhor performance vocal por Eleanor Rigby. Afora isso, Revolver (1966) levou o troféu de "melhor capa de disco".

Dois anos depois, os Beatles voltaram a atacar com Julia, faixa do White Album, uma homenagem de John para sua mãe, Julia Lennon. Curiosamente, Eleanor Rigby e Julia saíram juntas na trilha do álbum Love, compilada e remixada para um espetáculo do e Cirque du Soleil em 2006.

Há ainda títulos que sugerem que o nome seja de alguma mulher, mas o humor fala mais alto, caso de Martha My Dear, composta por Paul McCartney, feita em homenagem à sua cadela. A polêmica também entra em cena com Lucy In The Sky With Diamonds, do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967). O título trazia as iniciais LSD, fazendo com que fosse banida de algumas rádios, mas na verdade ela foi inspirada em um desenho feito por Julian, filho de John Lennon. Lucy O' Donnell era uma garotinha que se sentava ao lado de Julian na Heath House School.

Angie
Outro exemplo de mistério e lenda no título é a balada Angie dos Rolling Stones, que obteve o primeiro posto na parada de singles da Billboard em 1973. Assim como Eleanor Rigby dos Beatles, há diversos rumores que cercam o título desta faixa do álbum Goats Head Soup (1972). O maior deles aponta que ela teria sido escrita para a ex-mulher de David Bowie, Angie Bowie, mais uma das centenas de "amigas íntimas" de Mick Jagger.

Dizem ainda que esta teria sido a forma que Mick Jagger encontrou para se desculpar de Angie, que supostamente havia flagrado Mick e Bowie na cama. Outra corrente afirma que a letra sugere que estejam falando a respeito da relação de Jagger com Marianne Faithfull, que se encerrou em 1969. Mais uma possibilidade, a mais cabível, é que Keith Richards - que assina a faixa ao lado de Jagger - tenha escrito-a para sua filha Angela "Dandelion" Richards, nascida a 17 de abril de 1972, ano do lançamento de Goats Head Soup.

Beth
A balada Beth do Kiss é mais um caso curioso. Embora tenha feito enorme sucesso, a música por pouco não foi sacada do álbum Destroyer (1976), já que originalmente seria apenas o lado B do single de Detroit Rock City. Gene Simmons e Paul Stanley estavam receosos em incluí-la, mas um DJ americano de rádio colocou-a por descuido no ar e a composição de Peter Criss e Stan Penridge - originalmente chamada Beck e gravada no Demo-Tape da banda Lips - teve enorme acolhida. Além de ser o primeiro disco de ouro do Kiss em formato single, recebeu o prêmio no 'People's Choice Awards' de 1977.

O baterista e vocalista Peter Criss certa vez afirmou que Beck falava sobre sua esposa à época, Lydia, mas tempos depois reconsiderou e disse tratar de Becky Brand, namorada do guitarrista Michael (Mike) Brand do Chelsea, grupo que deu origem ao Lips.

Segundo Criss, a hipocondríaca Becky estava sempre doente e vivia interrompendo os ensaios. Até que numa ocasião ela telefonou no meio de um ensaio e Criss rascunhou o que o guitarrista Michael estava falando para Becky: "Beck, I heard you calling but I can't come home right now...". No final das contas, o diálogo virou a letra e bastou trocar Beck por Beth.

Whole Lotta Rosie
A letra de Whole Lotta Rosie, clássico do álbum Let There Be Rock (1978) do AC/DC fala sobre uma mulher obesa, Rosie, que tinha tido uma relação sexual com Bon Scott na Tasmânia. Apesar do peso (aproximadamente 120Kg), o falecido vocalista havia dito que a experiência fora uma das melhores de sua vida sexual.

O guitarrista Angus Young confesso que Bon Scott certa vez voltou à Tasmânia e encontrou Rosie bem mais magra, fato que o desapontou. Mesmo assim, Rosie sempre foi reverenciada pelo AC/DC e em diversos shows entra em cena como uma boneca inflável gigante, como consta no vídeo Live At Donington.

Vera
A faixa do cultuado álbum conceitual The Wall, lançado em 1979 pelo Pink Floyd, faz referência à cantora inglesa Vera Lynn, nascida em 1917. A letra traz: "Does Anybody Here Remember Vera Lynn?/Remember How She Said That We Would Meet Again Some Sunny Day?".

O conceito de The Wall era tratar da vida fictícia de um anti-herói chamado Pink, que tinha perdido o pai na Segunda Guerra Mundial e Vera Lynn fez sucesso justamente nesta época, com a música We'll Meet Again, de 1939.

My Michelle
A música My Michelle, composta por Axl Rose e Izzy Stradlin, saiu no platinado álbum de estreia do Guns N' Roses, Appetite For Destruction (1987), fala a respeito de uma conhecida da banda, Michelle Young, que tinha sido amiga da primeira namorada do guitarrista Slash.

De acordo com o vocalista Axl, certa vez ele e Michelle estavam no carro quando ouviram Your Song de Elton John no rádio. A garota logo comentou: "Eu sempre quis que alguém escrevesse uma música para mim". Dito e feito.

Curiosamente, Michelle Young é a garota que aparece no começo do videoclipe da música Welcome To The Jungle, outra faixa de sucesso de Appetite For Destruction.

Outros exemplos
Basta puxar pela memória que rapidamente encontramos hits como Izabella (Jimi Hendrix), Layla (Eric Clapton), Barbara Ann (The Beach Boys), Carol (Rolling Stones), Sara e Johanna (Bob Dylan), Kayleigh (Marillion), Abigail (King Diamond), Little Sheila (Slade), Amanda e Magdalene (Boston), Rhiannon (Fleetwood Mac), Jamie's Cryin' (Van Halen), Madalaine (Winger), Sheena Is A Punk Rocker e Judy Is A Punk (Ramones), entre dezenas de outras que não se tornaram hits, mas têm a mesma ligação.

Só que algumas bandas foram além e fizeram deste recurso quase que uma tradição, caso da norte-americana Toto, com Angela, Goodbye Elenore, Pamela, Melaine, Carmen, Manuela Run, Lorraine, Lea, Anna e um de seus maiores hits, Rosanna, faixa do álbum Toto IV (1982). O mistério sobre o título permanece sem esclarecimento, embora alguns digam que a homenageada seria a atriz Rosanna Lauren Arquette, ex-namorada do tecladista Steve Porcaro. O autor da música, David Paich, nega.

Outro grupo que tradicionalmente incluiu títulos assim foi o inglês Status Quo, como se vê no álbum Ma Kelly's Greasy Spoon (1970) e em músicas como Elizabeth Dreams, Antique Angelica, Caroline, Claudie, Joanne, Sheila (cover do The Satins) e Lucille (de Albert Collins e Little Richard).

O falecido Phil Lynott (vocal e baixo), líder do Thin Lizzy, homenageou sua mãe Philomena Lynott em Philomena, sua avó Sarah Lynott em Sarah, além de Sweet Marie, na qual falava sobre a solidão de estar na estrada, longe de casa e dos entes queridos. Outra muito conhecida da banda é Rosalie, que faz parte do álbum Fighting (1975), na realidade um cover de Bob Seger (originalmente do álbum Back In '72), músico e compositor norte-americano que também incluiu vários nomes femininos em títulos (Evil Edna, Louise, Betty Lou's Gettin' Out Tonight e I Can't Save You Angelene).

Mesmo que nenhuma destas tenha sido criada por causa do real significado do nome, a maioria obteve sucesso e, portanto, não há como negar que a ligação surpreende, especialmente se formos analisar os grupos mais ligados ao Gothic, como The Mission (Severina, Fabienne e Amelia), The Sisters Of Mercy (Alice, Lucretia My Reflection e Marian), Charlotte Sometimes (The Cure) e Christine (Siouxie & The Banshees). Alice, por exemplo, significa 'a verdadeira', enquanto Fabiene significa 'fava que cresce e predispõe a pessoa a ter um sucesso cada vez maior em todos os seus empreendimentos'.

O grupo norueguês Theatre Of Tragedy, que recentemente se apresentou no Brasil, foi além e fez do álbum Aégis (1998) um verdadeiro tributo ao folclore que envolve o sexo feminino, em faixas como Cassandra, Lorelei e Angélique.

Uma outra hora falarei sobre a utilização de nomes artísticos femininos em bandas. Exemplos? Alice Cooper, Bathory, Lizzy Borden, Angelica, Britny Fox, Lillian Axe, Vanessa...