terça-feira, 27 de outubro de 2009

XXX: a segunda do Lado A

Toda vez que as coletâneas contendo bandas novatas de Heavy Metal eram lançadas havia uma espécie de obrigação em se obter, no mínimo, uma gravação em cassete. Aí era aquela correria habitual daqueles tempos em que os 'tape traders' e os fanzineiros dominavam: um passava para o outro, que copiava para outro e assim por diante. A propagação, que hoje é feita em poucos minutos através dos downloads – sem ao menos o álbum físico ter sido lançado –, era mais lenta, porém mais romântica.

A mais representativa e famosa destas coletâneas, a "Metal Massacre", surgiu em meados de 1982. Pouco tempo depois, aquela ideia do chefão da gravadora norte-americana Metal Blade, Brian Slagel, era uma realidade na cena. Tudo bem que no Brasil as versões chegavam com atraso, mas com as coletâneas – as fitinhas copiadas – em mãos, cada um passava eleger suas bandas preferidas e saía em busca de qualquer sorte de material que pudesse encontrar sobre elas. Havia algumas divergências, mas algumas destas foram unânimes logo na primeira audição, casos dos então novatos Metallica e Slayer, por exemplo.

Os anos iam passando e a "Metal Massacre" continuava firme, revelando boas bandas. Em meados de 1985 veio a "Metal Massacre VI", trazendo o Possessed com "Swing of the Axe" como "abre alas". Como a gravação comprada em lojas como a Woodstock Discos ou algumas da Galeria do Rock (SP) não faziam nenhuma alteração – o lado A do disco era o lado A da fita cassete e o lado B era o lado B –, a ordem das faixas era a mesma. Algumas vezes, quando tínhamos a cópia da cópia da cópia em mãos, algum intermediário dava uma alterada no track list e confusões viravam "lendas urbanas" do meio Metal. Sempre tem aquele carinha que diz ter certeza absoluta que a terceira música do lado B é da banda X, porque a fita dele era gravação do disco original. Bem, deixa pra lá, você já deve ter passado por isso alguma vez na vida. Infelizmente, a gravação que obtive da "Metal Massacre VI" era uma destas alteradas.

Por sorte, descobri que os mesmos amigos do basquetebol do clube Paineiras do Morumby, que editariam pouco tempo depois comigo o fanzine DeathCore, tinham a cópia com a ordem correta da "Metal Massacre VI". Assim, enquanto eu pensava estar ouvindo e curtindo muito uma banda chamada Steel Assassin, os irmãos Caio e Conrado Tabuso me alertaram que aquela era a "Welcome to the Slaughterhouse", do Dark Angel. Sorte que não passei a confusão adiante, porque já estava começando a fazer propaganda demais a outros amigos de bandas que, na realidade, nem tinha gostado tanto.

Regravei-a com a ordem correta e então começamos a eleger as melhores. Como éramos os mais "porradeiros" e curtíamos muito mais os sons extremos, o primeiro eleito foi o Possessed, seguido pelo Hirax, Dark Angel e Halow's Eve.

Só então comecei a perceber que toda vez que ouvia aquela segunda do lado A, a sensação era diferente. Até mesmo quando ia montar uma coletânea para outro amigo conhecer novas bandas, incluía a "XXX". Cheguei a fazer isso para uma das dezenas que gravei ao Claudio Fortuna, que também passou a comentar bastante sobre aquela, segundo ele, "banda esquisita, mas legal".

O som era um Heavy/Thrash de certa forma esquisito mesmo, mas que cativava. Não era aquela coisa que impressionava pela agressividade, como quando ouvimos pela primeira vez o Possessed, mas eles tinham alguma magia diferente. Passei dias, meses e até hoje ainda me pego com aquele refrão sacana "XXX... Triple X". O Nasty Savage provou que havia espaço para a sacanagem explícita no Metal e que as bandas mais agressivas não precisariam viver só de "satan", "evil" ou "demon".

O grupo foi formado na região de Tampa (EUA) no início dos anos 80, por Fred Dreschigan (baixo), Ben Meyer (guitarra) e Craig Huffman (bateria), ainda com o nome de Nightmare. A entrada do vocalista "Nasty" Ronnie Galleti fez com que mudassem radicalmente a linha musical. A primeira mudança ocorreu antes da assinatura do contrato, com a saída de Craig Huffman e entrada de Curtis Beeson, além da chegada de Dave Austin, como segundo guitarrista.

Após a gravação da Demo-Tape "Wage Of Mayhem" (1984), a Metal Blade se mostrou interessada e apostou no potencial da banda, que fez sua estreia justamente na coletânea "Metal Massacre 6". Posteriormente, saiu o cultuado 'debut' "Nasty Savage" (1985), lançado inclusive no Brasil em vinil. Na sequência, após a mudança de baixista com a entrada de Dezso Istvan Bartha, saiu "Indulgence" (1987), mostrando uma sonoridade mais agressiva, bem trabalhada e totalmente Thrash Metal.

Àquela altura, o Nasty Savage tinha um dos shows mais intensos da cena americana. Entre outras estripulias, o insano e performático vocalista Nasty Ronnie cuspia sangue e quebrava aparelhos de televisão no palco, enquanto o baterista Curtis Beeson fazia sua pirofagia cuspindo fogo após seu solo.

E qual não foi a surpresa geral dos fãs brasileiros, quando Nasty Ronnie veio ao Brasil para promover o lançamento de "Indulgence" – que trouxe a regravação de "XXX" – e acertar os detalhes para uma possível apresentação no país. Aquela tarde de sábado à frente da Woodstock Discos, que já estava situada em seu segundo endereço – em frente ao metrô Anhangabaú –, foi inesquecível. Ao contrário da maioria das sessões de autógrafos, Nasty Ronnie fez questão de ficar fora da loja. Passou horas ali, no meio dos bangers, conversando, tirando fotos e concedendo autógrafos na maior humildade.

Estava junto com os grandes amigos do Rio de Janeiro – músicos da banda Necromancer – e de um grande colecionador e conhecedor de Metal, o Fernando Folena. E foi justamente o Folena que me convenceu a voltar para casa para pegar meus discos de vinil para que Nasty Ronnie os autografasse. Foi o que fiz e hoje sei que somente pelo Metal isto é possível.

Além dos autógrafos nos discos do Nasty Savage, Nasty Ronnie ainda fez questão de assinar na página dedicada à banda no fanzine DeathCore, sem antes perguntar: "Você falou bem da minha banda?". Expliquei qual era o teor do texto e Ronnie rabiscou um "DeathCore Rules!". Saímos todos contentes por termos passado uma tarde diferente e agradável em frente à Woodstock Discos.

Naquela longa noitada na extinta Choperia Pedágio, localizada no bairro do Ibirapuera, o papo foi quase que exclusivamente sobre Heavy Metal e, claro, o Nasty Savage. Acredito que os poucos assuntos, fora comentar sobre todas as mulheres presentes no bar e Heavy Metal, foram os drinques esquisitos do Pedágio – "Pô seu Guarda", "Subida da Serra", "Descida Perigosa" – e o chope de 1 litro, o famoso Maracanã. Aí foi aquela habitual discussão sobre futebol paulista X futebol carioca.

No ano seguinte veio a grande notícia, com a confirmação de shows do Nasty Savage no Brasil, com datas no Rio de Janeiro (RJ) e em São Paulo (SP). A inesquecível data da apresentação na extinta casa Projeto SP ocorreu a 23 de julho de 1988, com abertura a cargo da melhor banda brasileira de Thrash Metal: Korzus. No Rio, o 'opening act' foi a Dorsal Atlântica. Ah, como era boa a época que escolha da abertura era feita exclusivamente por merecimento...

E lá fomos nós... Tudo bem que alguns foram "no embalo", já que show internacional no Brasil era coisa rara. Quem realmente curtia, estava eufórico. Eu e o Claudio Fortuna – aquele mesmo, que tinha conhecido a banda por causa da "Coletânea Batalha Vol. 15" – fomos com uma missão extra: filmar o show. Estava acostumado a filmar os shows de bandas nacionais no Teatro Mambembe, no Rainbow Bar ou em qualquer que fosse o buraco que tivesse show, mas a velha câmera Panasonic VHS estrearia em um evento internacional.

Estávamos apreensivos, pois mesmo com toda negociação feita de forma antecipada com o dono da revista Rock Brigade, Antonio Pirani, a entrada de uma pessoa não credenciada em um show naquela fase era quase impossível. Imagine, então, duas pessoas com ingressos comuns portando uma filmadora. Se um fã era proibido de entrar com uma simples máquina fotográfica, com uma filmadora era algo tão raro que parecia mais proibido e difícil que entrar em um show com alguma substância ilícita.

Até houve um pequeno estresse na entrada, com aquelas costumeiras palavras proferidas de forma agradável por seguranças e porteiros, como "não estou sabendo de nada" ou "sem credencial, sem chance". Enfim, conseguimos entrar e fomos para o "Balcão Nobre", já que filmar na pista seria inútil.

Os shows foram fantásticos. Como fiquei tentando me concentrar na filmagem não deu para agitar muito, mas obviamente curti e vibrei com músicas como "Stabbed In The Back", "Gladiator", "Inferno", "Unchained Angel", "Witch's Sabbath", "Metal Knights", "Divination", "You Snooze, You Lose", "Abstract Reality" e, obviamente, "XXX". Já o Claudio Fortuna ficou abismado e tão empolgado com a qualidade de som e a postura de palco do Korzus, que afirma até os dias de hoje que preferiu o set dos brasileiros, mesmo tendo gostado bastante da performance do Nasty Savage. Eu sei, você também pensou ou já ouviu dizer que quando dão as mesmas condições e a mesma estrutura, as bandas brasileiras detonam... Uma pena que não é sempre assim.

Ao final da apresentação do Nasty Savage, fomos tentar achar o Toninho da Brigade para entregar a fita VHS com a filmagem do show e receber o pagamento. Claro que ouvimos quase as mesmas coisas: "aqui não pode entrar", "sem credencial não dá", "fazer o quê no camarim?"...

Com a entrada liberada, conseguimos até mesmo falar com todos os músicos, algo raríssimo mesmo depois de quinze anos de atuação como imprensa no meio do Heavy Metal. Dá para contar nos dedos de uma mão as vezes que conseguimos entrar em camarins ou falar com músicos de bandas após um show. Ficou surpreso com isso? É, não existe essa de credencial "all access" para a mídia não.

Falei com Nasty Ronnie e lembrei-o daquela tarde na Woodstock Discos e do Fanzine DeathCore. Como o lado fã falava muito alto e o do jornalista parecia instintivo, havia levado no bolso uma folha de papel com o provável set list e colado uma foto da banda que tinha saído em um jornal de grande circulação de São Paulo. Já que a folha estava no bolso mesmo, aproveitei para pegar autógrafo de todos.

Todos assinaram e quase preencheram a folha toda. Todos, menos o guitarrista Ben Meyer. Engraçado que na hora, ainda pensei: "Mas que cuzão esse cara!". Continuei falando com todos, menos com ele.

Aí, já em casa, peguei a folh
a de novo, tomei um susto e me senti mal... O cara tinha assinado o nome dele bem pequeno, quase imperceptível, em cima da foto que tinha sido publicada no jornal. Quem adora esta história é o meu grande amigo "anão" (2m04) Fernando "Jospeh Goose" Biava, ex-companheiro de Basquetebol e parceiro de tantos outros shows e baladas. O cara adora rir da minha cara e pede direto para eu contar para os outros esse tremendo fora que dei no camarim com o Ben Meyer.

Após a passagem pelo Brasil, o Nasty Savage seguiu promovendo o EP "Abstract Reality", mas depois substituiu seu baixista, passando a contar com o já falecido Chris Moorhouse. No ano seguinte, saiu o álbum "Penetration Point", mostrando ainda mais evolução musical. Durante aquela turnê, o baterista Curtis Beeson cedeu o posto para Rob Proctor, que esteve como músico convidado. Entretanto, problemas internos de relacionamento e na gerência dos negócios fizeram com que a banda encerrasse as atividades.

O show de retorno ocorreu somente em 1998, no festival alemão "Bang Your Head". Os fãs se animaram, mas a volta oficial ocorreu somente após o l
ançamento do EP "Wage Of Mayhem", em 2002. Aí, a vontade falou mais alto e Nasty Ronnie (vocal), Ben Meyer e David Austin (guitarras), Curtis Beeson (bateria) e Richard Bateman (baixo) voltaram ao estúdio e gravaram "Psycho Psycho", que saiu em 2004. A qualidade musical apresentada foi a mesma, mostrando que os caras não tinham perdido a mão. Fiz questão de entrevistar Nasty Ronnie e a matéria foi publicada na edição #68 da revista Roadie Crew. E, claro, perguntei sobre a "XXX", a segunda do Lado A...

ARQUIVO RB: ENTREVISTA – NASTY SAVAGE

Por que o Nasty Savage resolveu encerrar as atividades após o lançamento do álbum Penetration Point?
"Nasty" Ronnie: Nós ficamos cansados de tudo e todos sabem que, às vezes, um relacionamento se desgasta e aí você fica mesmo de saco cheio. Tivemos alguns acordos mal feitos nos negócios e também problemas com o empresariamento. Com isso, sentimos que não iríamos conseguir sair daquele ponto onde paramos e resolvemos nos separar.

Após a separação, Ben Meyer formou o Gardy Loo e gravou com o Acheron, e você tentou seguir em frente com a banda Inferno. Como foi aquela época?
Ronnie: O Inferno era apenas um projeto, algo que eu sempre quis fazer, com um som extremamente pesado, para mostrar que eu também conseguia cantar Death Metal. Não fiz tanta questão em me dedicar de corpo e alma e procurar loucamente por uma gravadora. A Cook Records lançou o álbum e ele agora é parte da história, apenas isso.

Quando vocês tiveram a ideia e a vontade de voltar para cena com o Nasty Savage?
Ronnie: Nós não planejamos nada e eu nem fazia ideia de que estaria novamente num palco e sequer gravando um novo álbum de estúdio. Mas se é u
ma coisa que você tem em seu coração, nunca perde aquele sentimento. A "destruição" voltou e agora tivemos a chance de fazer este novo álbum, depois de termos relançado o EP e o Penetration Point. Aí, a Cook Records nos ofereceu uma ótima proposta para um trabalho inédito. Por causa disso sentimos que deveríamos nos reunir e esquecer o que aconteceu no passado e olhar somente para frente, criando coisas novas para que tivéssemos um Nasty Savage versão 2004! Desta forma, todo mundo trabalhou com mais paixão e emoção no processo de composição, resultando em um álbum como o Psycho Psycho.

Antes desse retorno oficial vocês realizaram um 'reunion show'. Como foi aquela apresentação e como foi a resposta do público?
Ronnie:
Nós fizemos o festival "Bang Your Head" na Alemanha, em 1998. Aquele foi o primeiro momento que voltamos a tocar muito depois de anos de ausência, mas naquela época ainda não estávamos com o baterista Curtis. Foi muito legal
aquele show, pois puder voltar no tempo, agitar, cantar, vibrar, ficar novamente louco e quebrar TVs... (risos). Fora a emoção ao ver o público cantando conosco e gritando: "Nasty Savage, Nasty Savage...". Aquilo foi tão bom que para nós passou depressa demais. Depois ficamos mais cinco anos sem nos apresentarmos. Tudo correu bem e o que interessa é que agora estamos de volta!

Alguma razão especial por terem escolhido o título de Psycho Psycho para o novo álbum?
Ronnie:
Bem, no começo o título da música era Psycho Sexual, mas nós não sabíamos ainda qual seria
o nome que colocaríamos no álbum. Essa foi uma questão meio complicada que demoramos para resolver. Aí fizemos uma lista com o nome de todas as músicas que tínhamos composto e mais outros que vieram à mente na hora. Só que quando estávamos em estúdio gravando, muitas pessoas vieram nos visitar, alguns jornalistas, amigos e fãs. Todos eles depois que ouviram a música que antes era Psycho Sexual nos disseram que haviam curtido muito "aquela onde o refrão repetia 'Psycho Psycho'"... (risos). Aí como percebi que aquilo havia grudado de imediato na cabeça das pessoas eu resolvi mudar para Psycho Psycho. E aí acabamos usando-o não só para a música, mas também como o título do álbum. É uma música muito forte e intensa, que marca realmente e todos concordaram que seria a melhor escolha, ainda mais porque todo mundo é mesmo um pouco 'psycho psycho' (risos). Muitas coisas de nosso dia-a-dia nos deixam assim, como o trânsito caótico, as filas, a seu chefe pentelho e todos aqueles altos e baixos da vida de qualquer pessoa. Todo mundo pensa um pouco em jogar tudo para o alto e ficar um pouco 'psycho psycho' (risos).

Concordo plenamente com isto!

Ronnie: (risos) Mas isso é uma coisa que está dentro de qualquer um e todos podem explodir a qualquer momento!

E os seus 'psycho psycho fans', como estão reagindo ao novo álbum?
Ronnie:
Os nossos verdadeiros fãs ficaram extremamente contentes, animados com nossa volta e adoraram o álbum! Eles nunca achavam que poderiam nos ouvir e por isso ficaram espantados. Por sinal, convoco nossos amigos brasileiros a postar sua mensagem no guestbook de nosso site oficial! Queremos ter conhe
cimento da reação das pessoas e ler o que eles estão achando sobre o álbum e o nosso retorno! Sobre a imprensa, muitos que hoje estão trabalhando na mídia eram jovens 'headbangers' na época do Nasty Savage, há cerca de quinze ou vinte anos, e se lembram da banda com carinho, porque cresceram ouvindo nosso som! Como eles estão trabalhando no meio, seja em sites, revistas, gravadoras, rádios, casas de shows, e não deixaram de ser fãs de Metal, nos trataram muito bem. Isso é muito legal, porque as resenhas positivas superam as negativas. Parece que estamos conquistando novos fãs, pois muitos pensam que somos uma banda nova.

Quem teve a ideia de regravar a música Savage Desire, vinte anos após o lançamento da clássica Demo-Tape Wage Of Mayhem? Como vocês chegaram a Chris Jericho (Fozzy) para fazer uma participação especial nesta faixa?
Ronnie:
Vejamos as músicas da Demo. A
XXX entrou no Indulgence. A Unchained Angel saiu no Abstract Reality. Aí pensamos em trazer de volta uma música daquela época e deixá-la com a cara de 2004. Escolhemos a Savage Desire desta vez e no próximo álbum quero regravar a Witch's Sabbath! Chris Jericho veio através de um amigo e um amigo.

Pensei que o seu envolvimento com Chris Jericho tinha vindo da paixão pelo Wrestling e as Artes Marciais em geral. Ele é lutador profissional de Wrestling e é tricampeão Intercontinental da WWF!

Ronnie:
Isso também, mas foi pelo lado musical, porque o próprio Chris havia dito que era um grande fã de nosso tra
balho e que queria nos conhecer pessoalmente. Marcamos um encontro e fomos jantar. Na primeira hora de papo ele não disse outra coisa a não ser a história do Nasty Savage! Ele provou mesmo que era um verdadeiro fã, além de ser um cara legal e talentoso, porque eu escutei os álbuns do Fozzy. Ele canta bem! Tempos depois, quando fomos gravar, o convidamos e ele disse que seria uma honra participar de nosso álbum. Até hoje nos falamos de vez em quando. Sobre as Artes Marciais, eu ainda sou fanático, mas como estou muito ocupado agora com a música e outras atividades, não tenho tido tempo. Posso voltar a praticar a qualquer momento, porque é outra coisa que está no meu coração!

Ainda com relação a músicas antigas da banda, por que vocês nunca gravaram as primeiras composições, como Stormchild, Satan's Defeat, Way Of The Warlock e Vigilante?
Ronnie: São músicas boas que você lembrou! Ainda tinha a Sirens' Call! Bem, apenas acabou acontecendo e elas foram ficando para trás e a Vigilante seria uma boa pedida para uma regravação! Se bem que eu acho que já usamos algum pedaço dela em outra música e aí ficaria ruim. Way Of The Warlock é outra legal! Existem alguns discos ou fitas piratas dos anos 80 onde tocamos estas músicas e muitas pessoas correm atrás deste material raro. Eu acho que agora já contentamos os velhos fãs com a Savage Desire e, como disse, a Witch's Sabbath poderá ser outra. Vamos pensar para frente, olhar para o futuro e criar coisas novas.

Falando em coisas novas, por que resolveram mudar um pouco o 'layout' do logotipo?

Ronnie: Foi amassado e esticado um pouco, mas apenas em termos de se fixar ao contexto geral da capa.

O Nasty Savage foi uma das primeiras bandas de Metal a gravar no Morrisound Studios. Você se lembra como foram as sessões de gravação do primeiro álbum, Nasty Savage?
Ronnie: Foi bem legal! Lembro que Brian Slagel da Metal Blade foi ao estúdio quando o álbum estava sendo mixado. Nós tínhamos produzido-o junto com Jim Morris e os outros engenheiros de som de lá, que eram muito bons. Depois que o Nasty Savage e também o Savatage gravaram lá todo mundo se interessou! Até mesmo o Sepultura, Agent Steel, Death, Destruction e outras. Demos o passo inicial e o Morrisound se tornou a casa das bandas! Scott Burns veio e começou a produzir também por lá. Acho que é interessante ver que o seu trabalho foi bem analisado e que muitos seguiram o bom caminho. Ser um abre-alas no estúdio Morrisound nos deixa felizes!

Uma das melhores faixas do primeiro álbum é a No Symp
athy. É verdade que vocês a compuseram no estúdio, meio em cima da hora?
Ronnie:
Na verdade é complicado lembrar exatamente isso após tantos anos, mas eu acho que não foi feita por último. Tínhamos todas as músicas compostas quando fomos gr
avar, ensaiamos muito antes da gravação. E quando chegamos no Morrisound ainda tocamos bastante todas as composições e acho que a No Sympathy estava incluída. O processo foi totalmente o inverso do Psycho Pyscho, que fizemos inteiramente no estúdio, pois não ensaiamos nenhuma vez para gravá-lo! Todo mundo criou a sua parte em separado e nos encontramos em estúdio. Dave vive no Tennessee e só encontrei com ele três vezes antes de começar a gravar o Psycho Pyscho. Eu nunca demorei muito tempo para escrever as letras, mas só consigo quando tenho a música pronta nas mãos, com os solos e tudo mais. Preciso disto para sentir realmente a vibração de uma composição! Desta forma, após tanto tempo, fiquei como um pintor que olha para a tela em branco, mas não tem o que pintar. Eu fiquei maluco, mas quando recebi as músicas novas gravadas eu enlouqueci, e fiz como Picasso ou Van Gogh em seus quadros, usei todas as cores que tinha (risos). Tudo que estava na mente foi colocado no papel e aí saíram a Dimension 13, Psycho Pyscho, Betrayal System... Escrevi a respeito de situações de relacionamento entre as pessoas, do tratamento, as emoções e os sentimentos.

E quanto ao seu modo de cantar? Você se lembra quais foram as primeiras influências e como desenvolveu seu estilo pessoal?

Ronnie:
Sempre fui muito mais um 'performer' a um vocalista técnico e estudado. Quando era bem criança, na época de escola, o que me chamava mais a atenção era um seriado de TV chamado "West Side Story" e eu lembro das gangues lutando e depois as danças. Lembro-me também que quando meus pais e familiares falavam para mim o nome do seriado, eu saia dançado pela sala (risos). Todo mundo cantava as músicas daquela série. Aí, nos anos 80 eu disse para mim mesmo que seria vocalista de Heavy Metal. Formei uma banda e depois entrei no Nasty Savage e a razão de termos feito logo de cara m
úsicas próprias foi porque eu não conseguia cantar músicas dos outros, era muito limitado nos covers (risos). Só que se você está cantando suas próprias músicas ninguém vai falar que falta algo ou que você está fazendo errado, porque é coisa que você criou! Aí dei a ideia de nos concentrarmos na gravação de Demos ao invés de pensar em covers. Disse para o pessoal: "vamos fazer do Nasty Savage uma banda e fodam-se os covers". Eu acho que sempre você pode mudar seu estilo de tempos em tempos, por isso eu nunca parei e continuei tentando coisas diferentes. Minhas influências pessoais vem do Black Sabbath antigo e também Ian Gillan, Iron Maiden com Paul Di'Anno e Bruce Dickinson e Rob Halford. Muitos pensam que meu estilo nos falsetes e gritos são por causa do King Diamond, mas na verdade me inspirei no estilo do Rob Halford. Lembro-me escutando aquela música do Judas Priest, Exciter e outras do álbum Stained Class, e ficava tentando chegar às notas mais altas. Mas aí você aprende a controlar e como chegar nelas. Foi o que fiz e adaptei ao meu estilo. No Psycho Pyscho eu não tive que cantar em cima de passagens complicadas e partes difíceis como aconteceu no passado e por isso pude realizar um trabalho diferente. No Abstract Reality sim, eu achei mesmo que estava cantando sério (risos). Lembra da Eromantic Vertigo? Sempre encaro como um desafio, pois se você não encarar desse modo, não vai evoluir e curtir e aí o melhor que faz é parar.

Como você mesmo disse, sempre pensou em tentar coisas novas. Foi por isso que no segundo álbum, Indulgence, você deixou de lado os falsetes e as notas altas e adotou um estilo mais agressivo?
Ronnie: É complicado mudar completamente, porque mesmo no Indulgence ainda cantei algumas notas mais altas e uns agudos. Só que da mesma forma que alguns aprovam as mudanças, outros só ficam questionando a respeito disso. No Psycho Psycho eu fiz realmente o que queria, sem qualquer influência. Bem, eu trabalhei no estúdio com Donald Tardy o baterista do Obituary e Mark Prator, engenheiro de som e também baterista. Toda vez que eu falei que ia dar um grito ou elevar a voz mais para o agudo, lá vinham eles: "Puxa irmão, outro desses..." (risos). Eu estava contra todos e disse "foda-se, farei do jeito que queria mesmo". Só que tenho consciência de tem os que querem escutá-los e os outros que não gostam e preferem o agressivo e o gutural.

Schmier, baixista e vocalista do Destruction, passou pelo mesmo, porque quando ele parou de dar os agudos e notas mais altas nos gritos, muitos fãs reclamaram. Agora ele voltou a usá-los...

Ronnie:
É normal que aconteça isso e eu o conheço bem porque fizemos algumas baladas juntos, já que eles também gravaram aqui em Tampa, no Morrisound. Na verdade, você não pode fazer querer agradar a todos, mas também não dá para obedecer aquele que pensa que é o "Sr. Metal", o sabe-tudo, entende? Faça o que está no coração, porque muitos desses são meros modistas e depois poderão estar escutando outro tipo de som. E isso vale não só na música, mas em nossa vida.

Como foi o começo da sua carreira? Por que sua primeira banda, Crionic Dogs, não vingou?

Ronnie:
Crionic Dogs... Bem, era apenas uma banda de garagem. Eu ficava nervoso naquela época quando estava cantando (risos). Tocávamos alguns covers e tínhamos somente uma música própria, a Red Devil Massage, que até hoje nem sei do que se trata. Bem, foi um aprendizado até que eu chegasse ao Nasty Savage.

No início o Nasty Savage tinha uma vocalista mulher...
Ronnie:
Sim, naquela época se chamava Nightmare e tinha mesmo uma garota no vocal, além de Fred Dreschigan no baixo, Ben Meyer na guitarra e Craig Huffman na bateria. Lembro que os vi em algumas baladas e tempos depois fiquei sabendo que eles estavam procurando um vocalista. Fui atrás e fiz o ensaio com eles. Acho que cantei umas quatro vezes a Wrathchild do Iron Maiden. Depois de um mês ninguém me disse se eu havia sido aceito na banda até que eu os encontrei numa festa e perguntei se estava dentro. Eles disseram que sim e no dia seguinte eu cheguei já com o nome Nasty Savage em mente e disse para eles. Estava bem consciente que queria eu falei também que eu seria "Nasty" Ronnie e que nós iríamos compor músicas próprias, juntar dinheiro para gravar um Demo de quatro faixas. Depois iríamos buscar uma gravadora, lançar um álbum, fazer turnês e ter uma carreira. Um ano depois tudo isso aconteceu, porque planejamos e aquele era nosso objetivo!

Como surgiu a oportunidade de fazer parte do cast da coletânea Metal Massacre 6 da Metal Blade, com a faixa XXX?
Ronnie:
Quando gravamos a Demo eu comecei a mandar para todas as gravadoras, lojas, rádios, fanzines, fãs de Metal e tudo quanto é lugar que tinha endereço que tinha alguma conexão com o Metal! Em nossos shows eu sempre fiz questão de termos fotógrafos próprios e acesso total para repórteres, pois assim eu mesmo poderia mandar nossas fotos para revistas. Aí muitas deles nos colocaram na capa e foi gratificante para nós porque deu resultad
o. Além disso, uma rádio no Texas que tocava nosso som sem parar. Foi ele que mandou a fita para Metal Blade e fez com que fizéssemos shows por lá, mesmo sem ter álbum lançado. E nessa época toda vez que íamos tocar fora, como eu morava com minha família, eu telefonava para minha mãe para saber como estavam as coisas e se tinham chegado cartas para mim em nome da banda. Toda vez ela dizia que tinham muitos pedidos para envio de nossa Demo, acho que vinte ou trinta cartas por dia. Aí, um dia ela disse que tinha uma carta em nome da Metal Blade Records. Eu logo pedi para que ela lesse a carta inteira. Bem, dizia que a gravadora havia se interessado pelo nosso trabalho, queria incluir uma música na coletânea Metal Massacre 6 e assinar conosco para um álbum. Preciso falar minha reação? (risos).

Como está a relação do Nasty Savage e a Metal Blade atualmente?

Ronnie:
Hoje em dia trabalhamos com el
es apenas na Europa, mas por lá está indo tudo bem e eles sabem trabalhar na promoção de uma banda. É bom sentir que eles sabem cuidar de seus negócios, porque investiram dinheiro e tenho certeza que querem retorno. Bem, até o momento não temos nada do que reclamar e está indo tudo muito bem.

Qual o álbum mais vendido da carreira da banda?

Ronnie:
Acho que todos mantiveram a mesma média. Não tivemos aquele estouro, mas também nenhuma decepção.

Haverá uma turnê de promoção ao Psycho Psycho?

Ronnie:
Bem, após a entrevista irei embarcar para o Brasil (risos). Brincadeira... Nós poderemos fazer uma turnê pela Europa, mas penso que se for para fazermos algo a este respeito, tem que ser uma coisa concreta e que vá dar bons frutos para a banda. Quando você fica mais velho, maduro, tem que pensar mais nos negócios porque você não é mais aquele jovem bobão, no bom senti
do, mas que faz qualquer coisa e fica alegre. Tenho minha família, meus filhos, contas a pagar e minha empresa, onde produzo um programa de TV, chamado "Born To Ride", sobre motocicletas e tudo que envolve esta área. Aliás, quem tiver interesse em motociclismo, basta entrar no site www.borntoride.com.

O Nasty Savage estaria preparado para uma nova passagem pelo Brasil?
Ronnie:
Sim, claro! Amamos o Brasil! O Psycho Psycho será lançado no Brasil, pela mesma gravadora que lançou um CD ao vivo nosso, Live In Clevland 1987 (N.R.: Marquee Records). Se tudo correr bem, poderemos fazer algumas datas por aí e rever nosso fãs brasileiros. A música Welcome Wagon (N.R.: faixa de abertura do álbum Penetration Point) já diz tudo no verso: "I'd like to go back to São Paulo / South America Down in Brazil / Then it was off To Rio De Janeiro / I was still thinking About São Paulo / The beautiful beaches Of Ipane
ma wasn't long / We saw the Tonga / Over the mountains Through the jungles On our way to Humberto's place / South America down in Brazil". Bem, preciso falar mais alguma coisa? (risos) Já falei sobre o Brasil nesta música, porque adoramos nossa estada por aí, as pessoas são muito amáveis e visitamos belos lugares. Além disso, os brasileiros sabem como fazer uma festa e se divertir, além de serem grandes fãs de Metal! Ah, e queremos muito comer nas churrascarias daí, que são absurdas de boas (risos). O cristo redentor no Rio também dá uma força e aquela vista nos pontos turísticos, as mulheres muito bonitas e gostosas. Adoraríamos voltar!

Sobre a performance da banda no palco, de quem veio a ideia de você quebrar uma TV e o baterista Curtis cuspir fogo após o solo, entre outras coisas 'psycho' que a banda faz nos shows?
Ronnie: Gostei das observações sobre coisas 'psycho' (risos). A ideia surgiu logo no início da banda, porque eu mesmo sofri influências nas loucuras dos shows da Wendy O. Williams (N.R.: falecida ex-vocalista do Plasmatics). Eu fui naquela linha e começamos com as nossas maluquices. Desde nosso primeiro show sempre tivemos esse lado cênico muito forte e que dá ainda mais força ao espetáculo. Lembro que uma vez quebrei duas TVs em Tampa e aquele foi um show sangrento. Também quase nos baniram em New Jersey, proibindo-me de quebrar a TV no palco no peito como eu fazia. Eu disse que aquilo era besteira e que eu faria de qualquer jeito (risos).

Falando em acidentes, vocês chegaram a ter problemas com incêndio ou fogo? Não estou falando de tragédias, como o ocorrido com o Great White, mas algo que aconteceu com Curtis cuspindo fogo após o solo de bateria...

Ronnie:
Tivemos alguns probleminhas e eu até ajudei a apagar com toalhas molhadas, se é que aquilo ajudou mesmo (risos). Isto sempre acontecia em clubes de menor porte, mas já aconteceu de pegar foto no teto de alguns lugares, mas nada como a enorme tragédia que aconteceu com o Great White. Você tem que tomar o máximo de cuidado!

O Nasty Savage dividiu o palco com bandas como DxRxIx, Hallows Eve, Slayer, Exumer, Atomkraft, Korzus e outras. Quais foram os grandes momentos e os shows inesquecíveis?

Ronnie: Muitos nos Estados Unidos, mas claro que não vou deixar de citar os shows no Brasil, no Rio de Janeiro e São Paulo, que foram muito bons. Tocar na Polônia para quinze mil pessoas foi marcante também. Outro que marcou foi o "Bang Your Head" na Alemanha, em 1998, que nos trouxe de volta. Gosto de relembrar aquela cena da Flórida também, onde abrimos caminho de algum modo e não esqueço de que músicos de bandas como Morbid Angel, Obituary sempre estavam presentes em nossos shows, antes mesmo de formarem suas bandas. O falecido Chuck do Death costumava fazer baladas conosco também e aquela época era bem legal! Agora também os shows que estamos fazendo estão sendo muito legais e estamos nos aprimorando a cada apresentação, por isso a mais recente é sempre a mais legal. Acho que no futuro será ainda melhor, pois o set estará mais insano e doente! As pessoas me perguntam se não estou muito velho para fazer Heavy Metal, quebrar TVs no palco e cantar como um louco, mas eu lhes digo: "Vão se fuder! Se pensam que estou acabado que vejam a intensidade nossos shows". Não quero ficar sentado só falando coisas como "eu era", "eu costuma ser vocalista de uma banda", "um dia eu fiz isso", porque agora é o que conta!

Esse pessoal então nem conhece Ronnie James Dio, Alice Cooper, Ian Gillan...

Ronnie:
Claro, são mestres que estão na ativa até hoje! Este é o ponto chave e você melhora com o passar do tempo. A maturidade ajuda o músico e também em nossa vida pessoal. Está certo que vários momentos do passado são inesquecíveis e todos nós temos nosso lado saudosista, mas olhar para frente tendo um objetivo é o que mais conta. Quando você toca em um festival de Metal, são trinta ou mais bandas como a sua e o que irá fazer com que você se destaque é a sua performance no palco. Se for um show matador, todos irão comentar, caso contrário, será apenas mais uma que tocou. Não damos espaço nem para uma pessoa sair para pegar sua cerveja, porque se for irá perder algo!

Sendo um grande exemplo do Metal dos anos 80, como você compararia a cena daquela época com a que temos atualmente?

Ronnie:
Com a Internet, é incrível a velocidade de como as notícias se espalham. Tudo acontece como que num piscar de olhos. Só que, infelizmente, a cena americana para mim é uma merda. Acho que os americanos às vezes são muito modistas, caem em qualquer embalo. Um dia são Metal, Hard Rock e no outro gostam de Grunge e agora do Slipknot e Limp Biskit. Porra, o que é isto? Apóiem o verdadeiro Metal, aquilo que não é tendencioso, falso, fingido, modista! Os europeus e os sul-americanos são bem mais fiéis e verdadeiros. Se eles gostam de uma banda, não deixarão de gostar de um dia para o outro. A situação do Metal nos EUA não está tão boa assim, a não ser para nomes como Slayer, por exemplo.

Quais são os planos para o futuro?

Ronnie:
Agendar shows e esperar que o álbum seja bem aceito e que venda, porque só assim poderemos voltar ao Brasil e tocar na Europa. Precisamos de um clipe, de um DVD, de estar novamente na mídia e se isso não acontecer, nosso nome não será ampliado aqui nos Estados Unidos. Quero muito que todos os nossos fãs escutem o Psycho Psycho e que nos ajudem e ter ainda mais sucesso que no passado! Quando uma pessoa gasta o seu dinheiro suado comprando algum material nosso, isso significa muito para nós, pois sabemos que não podemos desapontá-la! Gostamos de conversar com fãs, dar autógrafos e você deve ser real e não o "Senhor Rockstar". Temos muito trabalho a fazer, estamos sem empresário, mas vamos ver o que acontece.

Site: www.nastysavage.com

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Arquivo Entrevista: TIMO TOLKKI

O guitarrista finlandês Timo Tolkki, 36 anos de idade, faz parte de uma das mais importantes bandas da cena do Metal Melódico mundial, Stratovarius. Tendo a Música Barroca e o guitarrista Ritchie Blackmore (Deep Purple e Rainbow) como grandes influências, Timo iniciou sua carreira com a banda Road Block. Em 1985 entrou no Stratovarius no lugar de Staffan Stråhlman e, pouco tempo depois, passou a conciliar as funções de guitarrista e vocalista. Após lançar dois singles, saiu "Fright Night", em maio de 1989. Três anos depois, foi a vez de "Twilight Time", no qual Timo, além de gravar as guitarras e vocais, fez todas as linhas de baixo. A partir daí a banda não parou mais de crescer e figurou entre as mais saudadas no Japão e Europa. Na mesma época do lançamento do álbum "Dreamspace" (1994), Tolkki começou a gravar seu primeiro trabalho solo, "Classical Variations and Themes". Nesta fase, decidiu abandonar os vocais e recrutar Timo Kotipelto para o Stratovarius, que lançou "Fourth Dimension" (1995), vendendo o dobro de cópias em relação ao trabalho anterior. O grupo foi crescendo naturalmente e obteve status de banda top, lançando "Visions" (1997). Um ano depois saiu "Destiny", que entrou direto na 1ª posição dos charts na Finlândia, conquistou disco de ouro, o prêmio de melhor banda finlandesa de Metal, além de conquistas individuais dos músicos e várias outras honrarias. Tudo se repetiu com o trabalho seguinte, "Infinity" (2000). Na turnê de divulgação do álbum, a banda toca na Europa ao lado do Angra, reforçando a amizade que havia se iniciado em 1997, em Atenas (GRE). Em 2001, a banda optou por dar uma pausa nas atividades, mas lançou "Intermission". No entanto, este período de férias foi bastante produtivo para Tolkki, que soltou seu segundo trabalho solo, "Hymn To Life" que, segundo ele, foi um álbum feito com total liberdade e num clima bastante relaxado.

Em 1997 eu era roadie de bateria do Angra e nos conhecemos em Atenas (GRE). Naquela época, você já havia lançado seu primeiro álbum solo, "Classical Variations And Other Themes", no qual você buscava expor sua técnica e virtuosismo. Você concorda que "Hymn To Life" apresenta mais ‘feeling’ se comparado ao anterior?
Timo Tolkki: Bem, meu amigo advogado (risos)... Quando nos conhecemos eu estava fazendo uma ‘promo tour’ de divulgação do álbum "Visions" pela Europa e coincidentemente o Angra foi tocar na Grécia e eu estava lá, justamente hospedado no mesmo hotel. Foi legal aquele contato com o pessoal do Angra. Nós saímos, fomos jantar juntos e depois fomos beber umas cervejas num bonito bar perto do Paternon. Quanto ao álbum, eu concordo que tem mais ‘feeling’. Isto foi intencional, eu quis mesmo tirar umas férias do lado “guitar hero”. É óbvio que amo tocar guitarra, me apresentar para o público, mas com este álbum este lado não combinaria.

Sendo você o principal compositor do Stratovarius, foi difícil compor algo totalmente diferente como neste seu novo trabalho solo?
Timo: Neste caso não, foi realmente fácil. Este álbum foi quase como uma terapia para mim. Tiramos um período de descanso com o Stratovarius e eu queria fazer algo totalmente diferente. Foi a chance que eu estava esperando para botar em prática. O ano passado foi muito bom para mim, pude relaxar e recarregar as baterias para o que vem pela frente.

"Hymn To Life" é totalmente desprovido de imposições. Você realmente se libertou para fazer um som sem rótulo?
Timo: Sim! De fato eu me senti muito bem ao trabalhar desta maneira. Não é fácil ouvir este álbum e rotulá-lo. Não sofri nenhum tipo de pressão ou um estilo que fosse obrigado a seguir, fiz o que quis e com total liberdade. Isto não quer dizer que eu não tenho liberdade no Stratovarius, lógico que tenho. Não gosto de limitações e, na banda, aquele é o som que quero fazer. Para "Hymn To Life" os ideais foram basicamente pessoais, algo que acredito ser bastante comum para um trabalho solo.

Como surgiu a idéia de falar sobre a infância?
Timo: Faz tempo que venho querendo falar sobre isso. Venho fazendo psicoterapia há três anos e isto está sendo muito bom para mim, pois me abro mais como ser humano. Este álbum é como se fosse uma fase do processo da terapia. Quando eu era criança passei por maus momentos e esta terapia vem me ajudando muito. Se você não faz nada para ajudar a si mesmo essas coisas ruins vão continuar com você para o resto de sua vida. Parece que cresce dentro de você.

Mas por que você quis dividir experiências pessoais com seus fãs?
Timo: Existem várias razões para isto. Uma delas é que sou um artista e escrevo sobre o que sinto, as coisas que vejo e o ponto de vista pessoal a respeito do mundo que vivo. A segunda razão é que se por um acaso uma pessoa tiver sentimentos parecidos com os meus, o conteúdo do álbum irá tentar explicar o que isto significa.

E o grito na introdução do álbum, foi você que deu aquele berro?
Timo: Fui eu mesmo (risos). É apenas uma maneira diferente de começar um álbum. Talvez seja um alerta para que as pessoais saibam que o que irão ouvir não é o que estão esperando. Ainda mais se acha que o som será parecido com meu primeiro trabalho solo. Também é um pouco irônico e engraçado, pois a gravadora esperava algo mais comercial e achei que esta seria a maneira mais horrível de começar o álbum (risos).

Como se deu a participação de Michael Kiske na faixa de abertura, "Key To The Universe"?
Timo: Quem não gostaria de ter Michael Kiske no seu álbum? Na realidade eu compus esta música pensando como se a voz dele estivesse na minha mente, foi algo muito especial. A medida que ia compondo, já o imaginava cantando. Michael é um grande vocalista e faz tempo que queria trabalhar com ele. Tê-lo cantando numa composição de minha autoria foi como um sonho que se tornou realidade.

Como você compararia o estilo de Timo Kotipelto com o de Michael Kiske?
Timo: Timo tem algumas semelhanças com Michael, mas o tipo de voz é bem diferente, é mais um ‘feeling’ escandinavo. Como os registros das notas vocais são similares, não há como negar esta similaridade. Cada um tem sua individualidade e um vocalista tem que ter personalidade e sua identidade. Quando uma pessoa ouvir ela vai saber diferenciar que está cantando. Eles sabem quando é o Kiske, o Kotipelto ou o Bruce Dickinson. É uma questão de identidade.

E quanto a Sharon Den Adel? Quando você começou a gostar de bandas como Within Temptation?
Timo: Mas eu não a ouvi no Within Temptation e sim no álbum do Avantasia, do Tobias Sammet. Então, quando compus a música "Are You The One" queria ter uma voz feminina e aí logo pensei em Sharon. Entrei em contato com ela e gostei muito do resultado final, ficou muito bom. Ela tem uma bela voz.

Falando sobre esta música, qual a mensagem que você quer passar com "Are You The One"?
Timo: É uma música de amor, a busca pelo par perfeito. É algo que na verdade não existe (risos). Todo mundo queria estar ao lado do seu par perfeito, mas no ser humano não existe a perfeição. Acredito que exista uma mulher perfeita para cada homem e um homem perfeito para uma mulher. Bem, se o cara for homossexual, então para ele é um homem  perfeito (risos). Não vou zoar não (risos). Não tenho nada contra.

Onde você buscou inspiração para criar a música "Fresh Blue Waters"? Parece até Tom Petty...
Timo: Nossa, cada um fala uma coisa diferente. Já me falaram sobre Pink Floyd, David Bowie, U2. O que vale é que é uma coisa bem diferente do que costumo fazer. Esta música fala sobre estar sobriedade. O que me veio em mente foi a imagem do oceano, do mar, como a bela praia de Recife. Aquela imagem da cor azul do mar não saía da minha cabeça. Bem, isto estava na minha mente, mas eu a compus quando estava na estrada. Eu a fiz num quarto de hotel na Noruega (risos).

Você pensa em fazer shows para promover seu álbum solo?
Timo: Não, eu justamente quis dar um tempo com o Stratovarius por causas das turnês. Isto tem sido estafante. Fizemos mais de cem shows em 2000, um horror. Estávamos muito cansados e preferimos dar uma parada. Afora poucas apresentações em festivais nós passamos o ano de 2001 descansando e estamos prontos para outra. Começaremos agora a preparar o novo material. Me sinto muito bem para seguir em frente, tenho músicas novas prontas e estão bem legais.

Falando em Stratovarius, quais são suas lembranças da última apresentação em São Paulo?
Timo: O que posso dizer? Uma casa fantástica como aquela! Um público tão caloroso a atuante! Foi um dos pontos altos de minha carreira e me senti honrado em ter tido esta oportunidade. O público e o povo brasileiro é muito amigável, vibrante e certamente voltaremos para fazer shows e manter contato com os amigos. Da próxima vez queremos passar mais tempo com vocês, pois desta última nós não tivemos tempo disponível.

Para finalizar a entrevista, gostaria de saber...
Timo: (interrompendo) Eu já sei, você vai querer saber os meus álbuns preferidos em todos os tempos (risos).

Não (risos). Queria saber o que você tem escutado atualmente?
Timo: Como eu já tinha respondido daquela vez pensei que você fosse perguntar de novo (risos). Bem, atualmente tenho escutado... Ah, o meu álbum solo (risos). Ouço muita coisa de Música Clássica, como Vivaldi e Bach, e também U2, John Lennon, Iron Maiden, Dio. Também tenho ouvido os discos antigos do Stratovarius para voltar a pegar aquele mesmo ‘feeling’. Como trabalhei exclusivamente para este trabalho solo não costumava ouvir outras bandas, principalmente quando estava em casa. Aliás, em casa eu fazia outras coisas, menos ouvir música. 

Você chegou a ouvir o novo álbum do Angra, com a formação nova?
Timo: Sim, eu adorei. É um grande álbum, com boa produção, vocais grandiosos e eu até parei de tocar guitarra por algum tempo depois que ouvi os solos deste álbum (risos). Isto é verdade, eu achei os solos incríveis e as músicas muito boas, com novas idéias.

Você ouviu o álbum do Virgo?
Timo: Ainda não, mas ouvi muitos comentários positivos a respeito do Virgo, este projeto com o Sascha Paeth. Me falaram que é de altíssima qualidade e bem diferente do que estamos acostumados a ouvir dele. Acho Andre Matos um cara bastante talentoso e ele certamente também nos mostrará material de qualidade com sua nova banda, Shaman.

Os fãs brasileiros estão ansiosos pela sua volta ao Brasil.
Timo: Muito obrigado, vocês são especiais para mim. Espero rever a todos em 2003, pois antes disso não posso prometer nada. Vamos tomar umas caipirinhas de novo (risos)?

Mas você não vai exagerar e tomar dez numa noite só como fez aquela vez em São Paulo no Manifesto Bar...
Timo: Não! Aquela foi a lição que eu aprendi mais rápido em toda minha vida (risos). Passei o dia seguinte inteiro tomando água e coca-cola (risos).

Entrevista publicada na edição #38 da revista ROADIE CREW (março de 2002)

sábado, 1 de agosto de 2009

Arquivo Entrevista: TOM ANGELRIPPER (Sodom)

No início dos anos 80 o trio alemão Sodom iniciou sua carreira fazendo um som simples, direto, agressivo e com uma temática que o colocava como um dos pioneiros do Black Metal, como comprovam os álbuns In The Sign Of Evil (EP, de 1985) e Obssessed By Cruelty (1986). Após várias mudanças no line-up, o líder Thomas Such “Tom Angelripper” (vocal e baixo) decidiu mudar o tópico das letras. Esta mudança, aliada a uma natural evolução técnica, transformou a banda como uma das grandes realidades do Thrash Metal germânico. Os constantes problemas com as trocas de integrantes não foram capazes de obscurecer o sucesso dos álbuns Persecution Mania (1987) e Agent Orange (1989). O single Ausgebombt fez com que o trio fosse o primeiro nome do estilo Thrash a entrar nos charts da Alemanha. Em 1990 saiu Better Off Dead, evidenciando a veia Punk/Hardcore que tanto o líder aprecia. O agressivo e rápido Trapping The Vein (1992) marcou a saída do baterista Christian Dudeck “Witchhunter”, que estava desde o início e foi substituído por Guido Richter “Atomic Steif” (ex-Living Death). Steif permaneceu dois anos no posto, tendo gravado o ao vivo Marooned Live (1994). Já em Masquerade In Blood (1995), o line-up foi novamente mudado, com a saída do guitarrista Andy Brings e a entrada de Dirk Strahlmeister “Strahli”. Em 1996, saiu a coletânea Ten Black Years. Nesta época, Tom já colocava em prática o seu projeto Unkel Tom. O novo trabalho inédito veio somente em 1997, Til Death Do Us Unite, seguido de Code Red (1999). No entanto, Tom acredita que o novo álbum, M-16 (2001), marca uma nova fase para o Sodom, com um line-up sólido e unido. O líder espera que o trabalho ao lado de Bobby Schottkowski (bateria) e Bernemann (guitarra) seja prolongado por muitos anos.

É sabido que você gosta muito sobre o tema Guerra, mas qual foi o motivo de escrever sobre a Guerra do Vietnã?
Tom Angelripper: Não é somente sobre o Vietnã, apenas usamos alguns fragmentos, pois todo mundo já ouviu falar muito sobre este tema, existem muitos filmes que retratam esta passagem, como o “Apocalypse Now”, “Full Metal Jacket”. Em nossas letras nós fazemos questão de esclarecer os males de uma Guerra, o quão ruim ela pode ser e seus efeitos. Nós somos alemães e poderíamos escrever muita coisa a respeito da Segunda Guerra Mundial e se você analisar as letras encontrará sempre uma mensagem subliminar: “parem a Guerra”. Esta é minha opinião, pois isto não leva a nada e você vê o que está acontecendo atualmente com o problema na América, que está gerando conseqüências ruins para todo o mundo.

Musicalmente M-16 capta o som do Thrash Metal tradicional, mas vocês ainda mantêm aquela pegada de Punk e Hardcore.
Tom: Sim, como você disse, M-16 é o típico Thrash Metal à moda do Sodom. Algumas pessoas estão comparando-o ao Agent Orange e ao Persecution Mania. Os álbuns que contém mais elementos do Punk e do Hardcore são o Masquerade In Blood, Get What You Deserve e Tapping The Vein. Eu gosto muito da música Punk, mas em M-16 quisemos mesmo fazer um Thrash clássico e muitas músicas poderão vir a se tornar clássicos do Sodom, pois quando estávamos criando-as pensamos em fazer coisas mais cativantes, bons refrãos e termos uma maior preocupação com o instrumental. Quando você ouve as músicas do álbum mais de duas vezes eles ficam em sua cabeça e será difícil esquecê-las para sempre. Esta foi nossa maior intenção e acredito que conseguimos!

Como foi a produção do M-16, que ficou novamente nas mãos de Harris Johns? Ele que trabalhou com o Sodom no Persecution Mania, Better Off Dead, Tapping The Vein e Till Death Does Us Unite!
Tom: Harris Johns é um grande amigo e nossa relação tanto pessoal como profissional é muito boa. Considero-o como um quarto integrante da banda. Ele sabe exatamente como devemos soar e sempre me dá garantias de que não irá deixar nosso som falso, mascarado, com uma produção saturada. O som que está no CD é mesmo o Sodom! Desta última vez quando estávamos em estúdio parece que alguém ligou a máquina do tempo, pois nós realmente voltamos aos anos 80. Resumindo, Harris Johns é a pessoa certa para produzir o Sodom!

O Sodom tem o costume de gravar covers, como Motörhead, Tank, Accept e agora a Surfin’ Bird, que ficou mundialmente famosa com o Ramones. Vocês pretendem lançar um álbum contendo só covers no futuro?
Tom: Não, este negócio de lançar álbum de covers é só para fazer dinheiro. Quando gravamos estes covers nossa única intenção é prestar uma homenagem às bandas que consideramos e também por diversão.

Assistimos ao show do Sodom no “Wacken” este ano e uma das coisas que mais chamaram a atenção foi o cenário do palco, com uma bela iluminação e um efeito bem legal com o pano de fundo que contém o logotipo.
Tom: Foi bom, mas você sabe, todo ano nós tocamos no “Wacken” (risos). Desta vez nós gravamos o show para um futuro lançamento em DVD, que sairá em 2002, mas tivemos muitos problemas técnicos com os efeitos pirotécnicos, algumas luzes que não tiveram o efeito desejado e também a qualidade do som. Mas, isto é assim mesmo, pois se você prepara uma grande produção específica para um festival corre esse risco. Mas o que podemos fazer? Nós subimos e fizemos nossa parte! Não dá para controlar tudo, estávamos lá primeiramente para tocar nossa música. O “Wacken” é um grande e importante evento, sempre nos traz algo de bom, uma experiência nova. Este ano nós tocamos depois do Motörhead! Foi bem legal tocar para 30 mil fãs do Sodom, àquela altura todos bêbados e agitando conosco. Não entendi direito, vocês foram do Brasil somente para o “Wacken”?!

Sim, nós fomos fazer a cobertura do evento.
Tom: Nossa, isto é muito legal, eu não sabia disso! No ano que vem eu estarei lá novamente, mas não com o Sodom, mas com meu projeto paralelo, o Unkel Tom.

Falando sobre shows, quais são as suas expectativas sobre a turnê “Sodom, Kreator e Destruction”?
Tom: Estou esperando muita coisa boa, será algo inesquecível para os fãs. Pessoalmente acredito que será algo para entrar na história, pois está turnê em conjunto é um fato inédito na carreira destas três bandas, que são consideradas as maiores do Thrash Metal alemão. Tudo foi feito em benefício dos fãs, até mesmo ingressos com baixo custo. Na Alemanha o revival do Thrash está sendo muito comentado e esta turnê irá colocar ainda mais fogo, já que houve a volta do Destruction, o Kreator fez um álbum de Thrash Metal e nós também gravamos um álbum mais com essa pegada. Não me importo com o que possam falar, pois o Sodom sempre manteve seu tipo de som, nunca mudamos e os fãs nunca ficaram desapontados. Muitas datas já estão ‘sold-out’ e estamos planejando algo maior! Quem sabe na América do Sul? Também temos planos para tocar na Ásia. Na verdade, esta é uma grande oportunidade dos promotores pegarem este pacote e aí poderemos fazer uma grande turnê mundial!

Não só pelo fato histórico, mas também porque as três bandas lançaram excelentes álbuns!
Tom: Não sou um grande fã do Destruction e do Kreator, mas os álbuns que eles lançaram são excelentes! É uma grande chance para todos nós, especialmente para os fãs.

Quando você formou o Sodom quais bandas serviram de inspiração? Sei que na época você gostava muito das bandas da New Wave Of British Heavy Metal...
Tom: Eu sempre fui um fanático por Motörhead, gosto muito do Venom, Slayer, Exciter e as bandas da New Wave Of British Heavy Metal, como o Raven, Jaguar, Witchfinder General e muitas outras. Mesmo assim, quando começamos a banda fizemos um som completamente sem pensar em nada, sem puxar nenhuma influência, queríamos apenas fazer apenas a nossa música. O Sodom do início era completamente diferente do Venom ou do Motörhead. Fizemos um tipo diferente de Black Metal no começo.

E os fãs de Black Metal respeitam muito o Sodom. Você credita isso ao som ou a temática das letras que usavam no início de carreira?
Tom: Sei que muitas bandas de Black Metal da atualidade pegam inspiração do material antigo do Sodom. Queiram ou não temos 20 anos de carreira e somos uma banda que faz parte da história e estas bandas novas sempre se interessam pelos primórdios do estilo que estão tocando. Não podemos comparar o estilo musical daquela época com as bandas de Black Metal da atualidade, pois elas estão se tornando bem comerciais nas Alemanha e na Europa de um modo geral. É outro tipo de música! Compare o som do Bathory, Venom e Celtic Frost, era bem mais próximo ao Rock and Roll e nós nunca usamos teclados, apenas fazíamos tudo de uma forma bem visceral. Era um Black Metal que tinha algo do Rock'n'Roll e do Hardcore. Bandas como Cradle Of Filth e Dimmu Borgir são bem famosas na Alemanha, são grandes comercialmente falando. Não dá mesmo para querer comparar com o nosso início de carreira. Me sinto muito orgulhoso de que tanto as bandas quanto os fãs de Black Metal se interessarem por nosso som no começo de carreira. Isto é genial!

Mas você acredita que isto acontece por causa das letras ou pelo som?
Tom: Ambas as coisas. As letras no início tinham ligação com minha paixão por Aleister Crowley, os grandes magos e os temas satânicos. Mas se você se aprofunda nestas coisas de Crowley fica louco. Na verdade isto não me trouxe nada e por isso mudei a temática a partir do Persecution Mania. Mais uma vez eu digo que aqueles eram outros tempos, não há como comparar o início dos anos 80 com o momento atual.

Já que falamos sobre o começo da carreira, é verdade quie o nome da banda veio por causa de uma frase que sua mãe dizia: “Jesus, este quarto está parecendo Sodoma e Gomorra!”
Tom: Sim é verdade! Toda vez que ela entrava no meu quarto dizia esta frase (risos). Mas ela também me explicou toda a história do que seria Sodoma e Gomorra, que foi uma cidade destruída por Deus devido aos pecados cometidos por seus habitantes.

E o que ela achou disso depois que a banda ficou mundialmente conhecida?
Tom: Sentiu-se muito orgulhosa, pois todo mundo conhece a banda Sodom. Ainda somos uma banda underground, mas nesta área somos uma das mais famosas do mundo!

No Brasil nós costumávamos trocar tapes K-7 e os Demo-Tapes do Sodom, Witching Metal e Victims Of Death, eram bastante procurados pelos fãs! Isto também aconteceu na Europa?
Tom: No começo foi algo muito engraçado, porque todo mundo sabia que o som estava mal gravado e as músicas eram bem primárias, mas de alguma forma muitos começaram a colecionar nosso material. Inclusive faz pouco tempo que recebi um e-mail de uma pessoa oferecendo três mil dólares pela Demo-Tape Wicthing Metal original. Isto eu não vendo e nem quero ganhar dinheiro em cima disso! Sei que na América muitos comentam sobre este material. Naquela época diziam que nossa banda era ainda mais pesada e rápida que o Venom e o Hellhammer e isto atraiu a atenção de muita gente. Aliás, esta foi a grande razão por termos conseguido nosso contrato para gravar o primeiro álbum.

O EP In The Sign Of Evil mesmo tendo uma produção ruim foi bem aceito pelos fãs...
Tom: Foi engraçado porque antes de fechar o contrato o chefe da gravadora SPV (N.R.: Manfred Schotz) disse que o Sodom era a pior banda que ele já tinha visto na vida! E por isso assinamos com eles! Quando fizemos o In The Sign Of Evil, tínhamos muito mais que cinco músicas, mas não tivemos a chance de gravar um álbum completo. Mesmo assim, conseguimos expandir nosso nome para o mundo inteiro e até hoje esse EP é muito comentado e faz sucesso. Tenho a impressão de que o In The Sign Of  Evil é um dos álbuns do Sodom com a vendagem de toda discografia! A produção ficou bem brutal, o som das guitarras e da bateria ficou bem pesado, mas tivemos muitos problemas, pois éramos péssimos músicos e tínhamos pouco tempo disponível para gravar. Isto é engraçado, pois este EP foi bem aceito pelos fãs no mundo todo. Já as críticas na época foram péssimas. A Rock Hard, a Metal Hammer e as revistas americanas disseram que nós éramos a pior banda do mundo (risos)!

Para ser bem honesto, eu prefiro o som do In The Sign Of Evil ao Obssessed By Cruelty.
Tom: Sim, a produção do Obssessed By Cruelty é pior mesmo! Nós o gravamos duas vezes e nenhuma ficou boa. A primeira ocorreu em Berlim. Depois desta sessão, enviamos as fitas master para a gravadora analisar. Eles recusaram e pediram para que gravássemos tudo de novo. Daí, fomos para um estúdio completamente diferente, em Nornberg, mas o som também ficou ruim. É por isso que o álbum tem duas versões diferentes. Uma saiu especialmente para a América, que foi a gravação do estúdio de Berlim, e a outra para a Europa, das sessões gravadas em Nornberg. Mesmo assim, o Obssessed By Cruelty sempre teve uma grande procura. Até hoje este álbum é bem vendido e tem muita procura, seja por fãs daquela época que não tem o CD ou pela nova geração, que ouviu falar e quer conhecê-lo.

A partir do Persecution Mania que o Sodom começou a se tornar uma grande lenda do Thrash Metal alemão. Você concorda que um dos maiores fatores foi da entrada de Frank “Blackfire” Godsdzik no lugar de Uwe Christophers?
Tom: Você está certo, foi a primeira vez que tivemos um grande guitarrista na banda. Frank era um grande guitarrista naquela época e fizemos músicas bem pesadas e com uma grande pegada! Nós evoluímos e muitos reconheceram isso, tanto que disseram que este sim era nosso primeiro álbum com qualidade. O Persecution Mania é o típico Thrash Metal e devo dizer que as letras também tiveram outro foco, daí esta mudança foi mesmo completa. Nós acertamos em ter mudado, pois desde então mantemos o mesmo estilo.

No álbum seguinte, Agent Orange, houve uma evolução musical ainda maior!
Tom: Foi mesmo, nós fomos melhorando gradativamente a cada álbum. Não sou um grande fã do Agent Orange e muitos podem até estranhar, mas a gravadora havia nos dito que deveríamos tentar repetir a grande receptividade que tivemos com o Persecution Mania. Por isso mantivemos exatamente a mesma linha, mas o material que tínhamos em mãos era para o Better Off Dead. Por incrível que pareça o Agent Orange nasceu assim (risos). E deu certo, porque é a nossa maior vendagem até hoje! Eu tinha dito que um dos mais bem vendidos foi o In The Sign Of Evil, mas o Agent Orange é um álbum completo e por isso está na frente. Não acho-o o melhor álbum. Gosto muito mais do Code Red, Tapping The Vein e o Get What You Deserve.

Se as coisas estavam indo bem, por que Frank saiu da banda para se juntar ao Kreator?
Tom: Ele teve a chance de fazer uma turnê na América com o Kreator e preferiu nos deixar. Ele nos disse: “Sou muito amigo do Mille, vivemos na mesma cidade e estou com a chance de realizar o sonho de ir fazer shows na América”. Na verdade não gostei de sua atitude, porque ele nos deixou duas ou três semanas antes de iniciarmos a turnê do Agent Orange, que também seria grande. Nós tivemos que arrumar um substituto às pressas e isto pegou muito mal. Eu disse à Frank: “Deixe disso. Você pode muito bem fazer esta turnê e depois sair da banda”. Ele recusou porque o Kreator estava prestes a embarcar para a América. Foi uma questão de prioridade e a dele era ir para a América.

Como vocês chegaram a Uwe Baltrusch, que era do Mekong Delta? Foi uma boa escolha para substituir Frank?
Tom: Eu já o conhecia e tinha seu contato, além disso era um guitarrista  muito técnico. Logo que Frank decidiu nos deixar eu perguntei se ele poderia nos ajudar e em pouco tempo ele decorou todo o repertório. Mesmo ele não sendo o músico ideal para a nossa banda, o que ele fez foi inacreditável! Eu não queria cancelar esta turnê de jeito nenhum, porque seria junto com o Sepultura.

O estilo do Mekong Delta era bem diferente e muito mais complicado.
Tom: Por esta razão ele tirou nossas músicas tão rápido. Para ele era fácil e ele conseguiu decorar tudo em menos de uma semana. Quando fomos ensaiar com ele, já aprovamos de cara e confirmamos a turnê. Mesmo assim muitos fãs ficaram desapontados quando não viram Frank no palco. Eles não sabiam que ele tinha saído da banda. Em muitas ocasiões, logo na primeira música muitos já ficavam olhando com cara de espanto, como se perguntassem: “Cadê o Frank?!”. Eu tinha que explicar para o público que nós preferimos substituí-lo e fazer a turnê por respeito aos nossos fãs.

Falando ainda sobre esta turnê, além destes problemas com a saída de Frank, vocês se desentenderam com o Sepultura?
Tom: Foi uma turnê de muito sucesso para o Sodom e para o Sepultura. Eu ouvi muitos rumores de que nosso relacionamento tinha sido péssimo, mas isso é um grande mal entendido. Para eles foi uma grande chance de tocar na Europa e nos demos bem. Todos os shows foram ‘sold out’!

Seguindo no tempo, você disse que gosta muito dos álbuns Code Red, Tapping The Vein e Get What You Deserve, mas e quanto ao Better Off Dead?
Tom: No Better Off Dead estávamos com um grande guitarrista, o Michael Hoffmann, que também é muito técnico. Ele era o guitarrista mais rápido que já tinha visto. Quando o ouvi tocando no Assassin já achei aquilo demais! Mesmo assim, ele não era o típico guitarrista para o Sodom. Algumas músicas do Better Off Dead são minhas favoritas em todos os tempos e, sem dúvida, o álbum também é um dos que eu mais gosto. Mas também fiquei muito triste quando Hoffmann saiu. Ele foi para o Brasil e disse que queria começar vida nova. Nós concordamos, pois a vida é dele!

Após mais uma baixa no line-up, como vocês encontraram Andreas Brings?
Tom: Fizemos alguns contatos com pessoas de revistas, dizendo que estávamos precisando de um guitarrista e então Andreas entrou em contato com Witchhunter. Começamos a ensaiar e eu gostei muito do estilo dele, pois ele sabia bem mesclar o som pesado, tocando de uma maneira agressiva, com toda a energia do Punk, já que ele sempre foi um grande fã do Ramones. E ele também gostava muito de Kiss. O problema com ele foi que estava usando a banda em seu próprio benefício. Eu dizia que ele deveria nos ajudar, sermos um grupo unido e ele queria ser conhecido como um rockstar, fazia tudo de forma individualista, até mesmo no palco! Ele faz parte da história do Sodom, gravou grandes álbuns conosco, o Tapping The Vein, Get What You Deserve e o ao vivo Marooned, mas, infelizmente, tive que pedir para ele nos deixar. Não havia mais clima e união para trabalharmos em conjunto.

Já que estamos falando bastante sobre problemas, o que houve com o baterista Christian Dudeck, o “Witchhunter”? Por que ele deixou a banda?
Tom: Na verdade o maior problema é que ele havia se transformado num alcoólatra, estava sempre muito bêbado. Teve problemas com sua namorada, cancelou ensaios, shows e estava sempre muito irritado. Ele nunca aceitou que Tom Angelripper fosse o líder da banda, ou algo assim, mas nós trabalhamos assim por 13 anos. Mas ele criou os problemas e eu tive que olhar para frente em benefício da banda. Tínhamos que continuar compondo, ensaiando, gravando, fazendo turnês e evoluindo. Para se fazer isso você tem que ser muito amigo de seu parceiro de banda. Se você está sempre bêbado não consegue prosseguir com seriedade, não trabalha direito. A gravadora e o empresário também perceberam o que estava acontecendo e disseram que daquele jeito não daria mais. Então, ele teve que sair.

Daí veio Guido Richter “Atomic Steif”, que era do Living Death.
Tom: Eu já conhecia há mais de 15 anos, tanto por causa do Living Death, como pelas baladas nos fins de semana. Sempre o considerei um dos bateristas mais rápidos da Alemanha. Além de ter uma boa técnica ele tocava muito rápido! Quando Witchhunter saiu eu disse a ele: “Por que você não se junta a nós? Você não tem mais o Living Death, não está com outra banda e não tem problemas contratuais...”. Eu fiquei muito satisfeito e ainda o considero um dos melhores bateristas da Alemanha! Infelizmente tive problemas com ele também, porque ele sempre quis ganhar muito dinheiro com a música e nem sempre isso é possível. Ele também não me aceitava como líder e queria ganhar sempre a mesma quantia que eu ganhava. Eu disse que isso não era possível. Aliás eu disse: “Tenho essa banda há 15 anos e você faz parte dela há 2 anos, o que você quer?”. Ainda bem que atualmente não este tipo de problema está sanado.

Mas na fase do Masquerade In Blood você ainda enfrentou mais problemas.
Tom: Sim, é verdade. Foi nosso último trabalho pela SPV até então e o guitarrista Strahli foi preso logo após as gravações. Ele sempre teve envolvimento com drogas e esta foi a causa de sua prisão. O pior é que foi condenado por vários anos, já que aqui na Alemanha não é brincadeira. O que mais eu podia fazer? Atomic Steif tinha saído, Strahli estava preso e então comecei o meu projeto Unkel Tom. Dois anos depois, percebi que deveria remontar o Sodom e aqui estamos. O line-up atual está unido, sólido e é bem forte! O M-16 está indo bem, e acho terei chances de negócios ainda melhores para este novo ano. Gostaria de dizer que mesmo tendo passado por vários problemas, eu sempre quis manter um line-up estável e agora nós somos grandes amigos, gostamos basicamente do mesmo tipo de som e ninguém aqui se preocupa em aparecer mais do que o outro. Somos uma banda!

Mesmo assim você tem intenção de lançar mais um álbum com seu projeto solo Unkel Tom?
Tom: Sim, sairá ainda este ano. Os outros álbuns foram bem, principalmente na Alemanha, porque eu vinculo o som com a cultura da bebida e como você sabe, aqui todos gostam de beber cerveja!

É como o Tankard!
Tom: Isso mesmo, mas no nosso caso é muito mais por diversão. É legal tocar sem nenhuma preocupação e se você puder ver um show do Unkel Tom saberá o que estou tentando dizer. Qualquer um pode subir no palco para cantar e beber junto comigo. É uma bagunça total, mas a música é direcionada para este tipo de fã.

Fora da música seu hobby é igual ao do Ted Nugent, pois vocês se tornam verdadeiros caçadores quando não estão envolvidos com a banda. O que você sente quando está caçando?
Tom: Para mim é como uma terapia. Eu aprecio muito a natureza, mas não caço profissionalmente. Eu acredito que todo homem no fundo é um caçador. Nunca ganhei dinheiro para fazer isso, muito pelo contrário, para caçar em locais autorizados você despende uma boa quantia. Na Alemanha não temos tantas florestas, mas eu relaxo bastante e limpo minha mente. É uma coisa bem pessoal e se você não amar a natureza não conseguirá se enfiar numa selva ou numa floresta para caçar.

Falando agora sobre o Brasil, quais as melhores recordações que você guarda do público brasileiro e dos shows?
Tom: Foi incrível, as pessoas estavam sedentas para ver o Sodom. Não dá para querer comparar com o cenário alemão, porque aqui você pode ver qualquer tipo de banda todo ano. Quando tocamos no Brasil, Paraguai, as pessoas têm sentimentos bem diferentes, elas estão lá porque passaram anos esperando para ver a banda. Esta atmosfera é muito legal. Nós tocamos no final de 2001 em Bangkok (THA) e foi a mesma coisa. Nenhuma banda de Thrash Metal tinha tocado lá! Depois da turnê européia, nós tentaremos ao máximo encontrar as pessoas certas que possam nos levar de novo para o Brasil e toda a América do Sul. Certamente vocês verão o M-16 ao vivo e nós faremos uma grande festa!

Entrevista publicada na edição #37 da revista ROADIE CREW (fevereiro de 2002)

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Arquivo Entrevista: NEIL HUTTON (Benediction)

Em seus onze anos de carreira, a banda inglesa Benediction, formada atualmente por Dave Hunt (vocal), Darren Brookes e Peter Rew (guitarras), Frank Healy (baixo) e Neil Hutton (bateria), sempre figurou no alto escalão do Death Metal mundial. A estréia foi com Subcouscious Terror (1990), que contou com o vocalista Barney Greenway (Napalm Death), rapidamente substituído por Dave Ingram. Depois, bastaram The Grand Leveller (1991) e Transcend The Rubicon (1993), para que o fiel público do Death transformasse o Benediction numa referência do estilo. Após uma pequena mudança na sonoridade em The Dreams You Dread (1995), a banda voltou a atacar o som mais violento em Grind Bastard (1998). No mais recente lançamento, Organized Chaos (2001), o poder sonoro característico da banda promete levá-la novamente ao topo. Mas, para Neil Hutton, isto só será possível se a gravadora Nuclear Blast voltar a investir na promoção e divulgação do álbum.

Acredito que Organized Chaos apresenta os mesmos elementos usados no Grind Bastard (1998), em especial a mistura do velho estilo da banda com o Hardcore ‘old school’. Vocês encontraram a melhor maneira de compor?
Neil Hutton: Esta é uma boa análise sobre como fazemos nossas músicas e tudo que é dito a nosso respeito deve ser levado em consideração. Mas, para lhe falar a verdade, a melhor maneira de compor é se juntar e fazer a música e se ela saiu deste jeito é porque sabemos fazer música desta maneira, é o nosso estilo. Concordo que há muito mais variedade em nossas composições atualmente, existem diferentes elementos musicais dentro do nosso universo Metal. Vejo isto com bons olhos, caso contrário iríamos sempre atingir as mesmas pessoas que já nos conheciam. Não fazemos isso de forma proposital.

Esta variedade vem por exemplo em Suicide Rebellion e Stigmata, que são mais técnicas e o lado Hardcore aparece em Suffering Feeds Me.
Neil: É isso mesmo que estava lhe explicando. Com relação a Suffering, nossos dois guitarristas gostam muito do estilo Punk e daí surge naturalmente esta maneira de compor. É uma coisa bem natural, é a vibração que eles têm no momento que estão fazendo a música. É uma faixa bem simples, mas tem impacto.


Este período de três anos entre os lançamentos está se tornando uma marca da banda ou é somente uma coincidência?
Neil: (risos) É somente uma coincidência. Aliás, nunca tinha parado para pensar nisso. Quando fizemos o Grind Bastard nós realmente ficamos contentes com o resultado final e sabíamos que o trabalho seguinte deveria ter, no mínimo, o mesmo impacto e por isso deveria ser feito sem pressa. No final das contas agora estamos contentes com ambos os lançamentos, pois Organized Chaos é tão bom ou melhor que o Grind Bastard.

A entrada do vocalista Dave Hunt no lugar de Dave Ingram tem algo a ver com esse período de três anos entre os lançamentos?
Neil: Dave Hunt foi uma das melhores coisas que aconteceram para o Benediction nos últimos tempos. Ele entrou na banda seis meses depois do lançamento do Grind Bastard. O último show com David Ingram foi no “Wacken” de 1998. Por volta de outubro do mesmo ano fomos para estrada e fizemos uma excelente turnê ao lado do Death. Aquela foi sua primeira turnê e o Organized Chaos é seu primeiro álbum e para mim ele superou David Ingram em dez vezes. Dave Hunt era meu amigo e eu já tinha o visto atuar em alguns pubs com sua banda de Black Metal. Por isso não houve problema em encontrar um substituto para Dave Ingram e todos ficaram muito satisfeitos.

Falando sobre sua performance no novo álbum, você criou partes simples, especialmente os andamentos mais rápidos, lembrando a velha escola do Hardcore. Você acredita que está conseguindo provar que é possível tocar de uma forma simples, mas obtendo um resultado final de alto nível?
Neil: Concordo com você, o que interessa é o resultado final. A bateria em muitas partes é mesmo simples, mas tentei ao máximo mesclar coisas interessantes e legais de ouvir sem me preocupar em estar sendo considerado um baterista técnico. Gosto de me inspirar nos grandes bateristas que cresci ouvindo e nós também temos feito turnês com grandes bandas e da mesma forma que capto algo dos bateristas eles pegam algo que faço de forma instintiva. Muitos também usam sua técnica apurada em certas partes e não ficam fazendo viradas mirabolantes e quebrando o ritmo o tempo todo. Gosto de tocar de uma forma mais agressiva, violenta e quando é possível encaixar uma parte mais técnica eu faço. O mais legal é o ouvinte sentir aquela parte difícil e comentar depois e não ficar babando sem saber o que o baterista está fazendo. Isto é chato.

O Benediction vem usando a tecnologia em benefício próprio, pois apesar de contarem com uma produção que melhora a cada álbum, a banda não se preocupa em utilizar elementos eletrônicos?
Neil: Acho que com o passar do tempo vamos descobrindo como deixar nosso som legal, manter nossas características intactas, mas apresentar ao fã uma grande qualidade sonora. O Death Metal dever ser produzido de uma forma transparente, deve ser barulhento e limpo. As bandas que não se preocupam com uma boa produção não saem do lugar. Algumas até fazem excelentes álbuns, mas como a produção está uma merda ninguém gosta. Com um CD bem produzido é óbvio que mais pessoas prestarão atenção ao som da banda. Uma produção pode colocar você no céu ou no inferno!

Ainda sobre isso, como foi trabalhar com Andy Sneap nos álbuns Grind Bastard e Organized Chaos?
Neil: Ele é uma grande pessoa, um amigo bem próximo de nosso baixista Frank. Andy é bem conhecido no meio e fez excelentes trabalhos com outras bandas, como o segundo álbum do Machine Head e o Stuck Mojo. Toda vez que for possível trabalhar com ele nós o faremos.

No começo dos anos 90 bandas americanas como Death, Massacre e Master criaram um estilo bem típico. Mesmo sendo uma banda inglesa, o Benediction incorporou estes elementos do Death Metal americano?
Neil: Pode ser que sim, mas não exatamente com relação a todas estas bandas que você citou, pois surgimos na mesma época. Tanto o Benediction como estas bandas do início do Death Metal sempre levarão alguma vantagem, pois criaram algo, surgiram primeiro e são originais. O Benediction é reconhecido por seu estilo próprio e acho que o Massacre também.

Por outro lado a Inglaterra revelou Carcass, Napalm Death, Bolt Thrower, Paradise Lost e, claro, o Benediction. Qual sua opinião sobre a cena no começo de sua carreira com o que temos atualmente?
Neil: No início o Death Metal cresceu muito rápido e se tornou muito popular entre os fãs de Metal. Não vou dizer que em todo continente, mas na cena underground da Inglaterra o Benediction era muito popular. Quando saíamos em turnê pela Escandinávia e na maior parte da Europa era uma loucura porque todos nos conheciam e compareciam em peso aos shows.

Muitas bandas que foram formadas na mesma época do Benediction mudaram um pouco a sonoridade ou até mesmo abandonaram o estilo. Você não acredita que para manter seus fãs é preciso continuar sendo fiel?
Neil: É difícil falar sobre isso. A coisa mais certa é fazer música com honestidade e mostrar isto para os seus fãs. Mesmo que você mude deliberadamente seu estilo e existem bandas que fazem ou fizeram isso, o que mais importa é que tenham algo a dizer, que não visualizem somente o dinheiro que irão ganhar, pois este ganho pode custar bem caro. Sei que muitas destas mudanças são por causa do dinheiro. Eles começam a fazer um som mais acessível para tocar nas rádios e, por conseqüência, tentar ganhar mais dinheiro. Não sei se eu aceitaria isso, pois acho estranho quando fazem isso. Nunca me vi tocando numa banda Pop!

Desde o Subcouscious Terror a banda vem trabalhando com a Nuclear Blast. Como está o trabalho da gravadora para a banda, copnsiderando que Inglaterra existem gravadoras como a Earache e a Peaceville?
Neil: Não tenho escutado muitos comentários bons a respeito da Earache e de nenhuma outra gravadora inglesa. Mesmo assim, o trabalho nosso com a Nuclear Blast está uma merda! Eles não estão mais a fim de nos promover. Basicamente é uma merda e isso é tudo que posso dizer. Não estão promovendo nosso último álbum como poderiam fazer. Uma promoção de duas semanas para um álbum ficar conhecido mundialmente é muito pouco. Saímos na Metal Hammer, na Terrorizer, fazemos uma turnê, voltamos para casa e nada mais acontece.

Então vocês já estão planejando uma troca de gravadora?
Neil: É bem possível que sim, mas ainda é muito cedo afirmar qual será esta nova gravadora. Acho que ainda faremos mais um álbum e aí sim poderemos mudar, pois não quebraremos o contrato.

Você concorda que a sonoridade do álbum The Dreams You Dread é um pouco diferente dos lançamentos mais recentes?
Neil: É verdade, foi um trabalho onde fizemos algumas experimentações, mas as pessoas não estavam tão preparadas para aquilo que tínhamos em mente na época. Depois gravamos o Grind Bastard e atendemos a expectativa de todos os nossos fãs. Mesmo assim, se fossemos experimentar novamente, faríamos algo na mesma linha do The Dreams You Dread.

Vocês costumam sempre gravar covers, como por exemplo Forged In Fire (Anvil), Electric Eye (Judas Priest) e Destroyer (Twisted Sister). Existe algum plano para um álbum só de covers?
Neil: Temos falado muito sobre isso atualmente, mas não estou certo de que lançaremos. Pessoalmente acho que seria uma coisa legal. Gostaria de tocar alguma do Obituary, do Cause Of Death.

Mesmo com esses problemas com a gravadora, existe alguma possibilidade da banda tocar no Brasil?
Neil: Nós gostaríamos muito de tocar na América do Sul, mas isto só seria possível se tivéssemos uma boa promoção da Nuclear Blast e se vendêssemos muitos álbuns por aí. Para mim seria muito legal tocar no Brasil.