domingo, 16 de maio de 2010

Conexão com "Deus": Ronnie James Dio

O Heavy Metal está de luto. O vocalista Ronnie James Dio (Ronald James Padavona) morreu na manhã deste domingo (16 de maio), aos 67 anos, após perder a luta contra um câncer estomacal.

A morte de Dio, que ficou mundialmente famoso por cantar em bandas como ELF, Rainbow, Black Sabbath e Heaven & Hell, foi confirmada por sua esposa e empresária, Wendy Dio. "Hoje meu coração está partido, Ronnie morreu às 7h45. Muitos amigos e familiares puderam dizer adeus antes dele morrer pacificamente", postou Wendy no site oficial de Dio (ronniejamesdio.com).

No mesmo comunicado, a esposa de Dio diz que ele sabia o tanto que todos o amavam e agradece o apoio desde que o vocalista soube da doença, em novembro de 2009. "Por favor nos deem alguns dias de privacidade para lidarmos com essa terrível perda. Por favor saibam que ele os amava e sua música vai viver para sempre", finalizou Wendy Dio.


MINHA CONEXÃO COM DIO
Quando peguei aquela nova edição do fanzine do fã-clube de Heavy Metal Rock Brigade, em meados de 1984, pensei: "Que legal, o Dio ficou entre os primeiros na votação dos melhores do ano. Acho que vou escrever para ele pedindo uma foto autografada." A ingenuidade do ato de um fã, que começou a ouvir Heavy Metal justamente por causa do Black Sabbath, falou mais alto.

Estudava inglês e redigi a carta em uma folha de caderno mesmo. Depois daquela tentativa de contato com a revista francesa Enfer, sem sucesso, no fundo tinha esperança de obter resposta de Dio, mas sabia que seria quase impossível. Afinal, nem a banda Dio ou o Black Sabbath haviam tocado no Brasil. Apenas Ozzy Osbourne estava confirmado para tocar por aqui pela primeira vez, no "Rock In Rio", realizado em janeiro de 1985. Fui ao correio do centro de São Paulo e mandei a carta endereçada a Wendy Dio, esposa e empresária do vocalista.

Quase na mesma época, a extinta revista SOMTRÊS veio com uma promoção, sorteando cópias do álbum de estreia do Dio, "Holy Diver". Mais uma vez, fui em frente. Recortei o selinho no canto do anúncio da promoção e mandei a carta. A esperança era a mesma de receber a resposta do Dio. Havia, mas era pequena...

O tempo passou e quand
o quase nem lembrava que havia enviado tal carta, minha mãe deu um grito: "Ricardo, o carteiro deixou um evelopão aqui em seu nome!". Desci correndo e quando abri era o "Holy Diver". Foi a primeira vez que escrevi para uma promoção. E ganhei!... E era do Dio!...

Passado algum tempo, mais uma vez ouvi o berro: "Ricardoooooo!". Bem, se houvesse uma competição de quem grita meu nome mais alto, minha mãe certamente ganharia até do Dio, Rob Halford, Bruce Dickinson, Geoff Tate, Glenn Hughes, Ian Gillan...

Era do correio. Carta do exterior. Não lembrava mais da carta ao Dio, mas quando vi o remetente Niji Productions Inc., aquele rosto carrancudo deu lugar a um enorme sorriso, com a boca ficando maior que a do Coringa, do Batman... Abri-a em menos de 5 segundos e lá estava a foto autografada com os dizeres: "Magic, from Ronnie James Dio". Só pensei comigo: "Consegui!".

A remetente, Sheila, que era responsável pelo Dio Fan Club, ainda escreveu que ficara contente por saber que Dio tinha se saído bem nos charts brasileiros. À época que recebi a carta, escrita em 25 de junho de 1984, a banda Dio estava perto de lançar seu segundo álbum, "The Last in Line", que saiu oficialmente em 13 de julho e se tornou meu preferido, ao lado de "Holy Diver".

E qual não foi a minha surpresa quando o programa "Fantástico" (TV Globo) exibiu com exclusividade o clipe da faixa título, "The Last in Line". O marketing para o primeiro "Rock In Rio" estava forte em relação ao Heavy Metal. Lembro que estávamos na casa de meus avós paternos, o Professor Sóter e a Dona Carmen, como costumávamos fazer aos domingos. Saíamos de lá quase sempre um pouco depois dos "Gols do Fantástico", que eu, meu irmão, o "Seu" Batalha, meu Tio Bosco e o Professor Sóter, não perdíamos. Imagine o espanto quando o apresentador Cid Moreira, com seu conhecido vozeirão, anunciou: "Agora, o musical do ex-cantor do grupo inglês Black Sabbath: Dio". Meu irmão Frederico e eu ficamos paralisados, hipnotizados, enquanto o Professor Sóter, quase "pescando" em sua grande poltrona reclinável favorita, não entendeu nada.

Anos depois, já trabalhando pela revista Roadie Crew, tive o privilégio de entrevistar Ronnie James Dio em algumas ocasiões, além de Tony Iommi, Ozzy e Vinny Appice. Consegui, inclusive, não perder totalmente o lado romântico de fã e com ele fiz questão de pedir mais autógrafos e fotos, como a mais recente, na nova passagem do Black Sabbath pelo Brasil. Tudo bem, do Heaven & Hell...


ARQUIVO: ENTREVISTA

Se alguém disser que admira o vocalista Ronald James Padavona, talvez você não se dê conta de que a pessoa estará se referindo a um dos maiores astros do Rock e do Heavy Metal de todos os tempos: Ronnie James Dio. O norte-americano, que passou pelas bandas The Vegas Kings, Ronnie and the Rumblers, Ronnie and the Redcaps, Ronnie & The Prophets, The Electric Elves, The Elves, ELF, Rainbow, Black Sabbath, Dio e Heaven & Hell, fala nesta coletânea de entrevistas que fiz para a revista Roadie Crew sobre alguns pontos de sua carreira e algumas curiosidades.

Quando e por que Ronald James Padavona adotou o nome artístico de Ronnie James Dio?
Dio: Quando estava no Rainbow, gravando o primeiro álbum da banda, Ritchie me perguntou se eu tinha um nome no meio, ao invés de Ronnie Dio. Disse que sim e passei a adotar Ronnie James Dio. Mas quando tinha uns dez anos de idade e já estava com uma banda, claro que não era profissional, achava que meu sobrenome era muito longo e resolvi pegar Dio, que também é uma palavra em italiano, assim como é meu sobrenome. Só que eu não fazia a menor ideia de que aquilo significava Deus em italiano, pois havia copiado de um membro da máfia, que também se chamava Ronnie Dio. Aí, tempos depois, vieram me falar que eu estava me intitulando Deus. Só que não sou e nunca serei, não tenho nada a ver com isso, é apenas o nome (risos).

Você nunca teve aulas de canto, mas mesmo assim se tornou um dos mestres com seu talento para cantar e possui uma carreira respeitável. Como é viver apenas da música?
Dio: Tenho sorte por ter conseguido viver somente da música e sempre busquei isso minha vida toda. Nunca pensei que pudesse sobreviver financeiramente vivendo da música, mas não foi o dinheiro que me levou a optar por esta carreira e sim a paixão em estar com uma banda tocando para pessoas que gostam do que você faz. Quando comecei, sabia que esta seria minha profissão, mas não fiquei sentado pensando que um dia ia fazer isto. Simplesmente comecei e fui em frente. Sou um afortunado por conseguir fazer o que mais queria na vida, pois muita gente trabalha duro a vida toda em um emprego que odeia. Fui abençoado com o talento e também por ter uma grande quantidade de fãs que querem me ver.

Quando está em turnê, você gosta e tem o costume de examinar o local e fazer o 'soundcheck antes de entrar no palco para fazer o show?
Dio: Claro. Na maioria das vezes, fazemos um detalhado soundcheck. Isto também depende da qualidade do equipamento que você tem disponível em cada casa de shows. Às vezes, não é o apropriado e por isso a equipe leva mais tempo para deixá-lo ajustado.

Como é para você ter a "Ronnie Dio Way" na cidade em que cresceu, Cortland (EUA)?
Dio: É muito legal e mais ainda para os meus pais. Achei extraordinário que colocaram o meu nome naquela rua na cidade que nasci e cresci. Acho até estranho ver meu nome lá, mesmo depois de tantos prêmios que recebi durante minha carreira. Cada um que ganhei tem um sabor especial, mas este da rua é ainda maior.

Um de seus trabalhos favoritos é o Heaven And Hell, do Black Sabbath, mas sempre achei que você preferisse o Rainbow musicalmente, já que sempre faz questão de tocar muitas músicas nos shows com o Dio e cita a palavra "rainbow" nas suas músicas...
Dio: Não, o Heaven And Hell ainda é o meu preferido! E por diversas razões: primeiro, musicalmente, e depois pelos problemas que o Black Sabbath tinha passado e estava precisando voltar com tudo, pois fazia três ou quatro anos que a banda não fazia sucesso. Eu me senti gratificado por poder recolocar a banda no patamar que merecia estar com o Heaven And Hell. O Rainbow é completamente diferente, pois é um tipo de música que vem da cabeça de Ritchie Blackmore. No Sabbath nós todos trabalhamos juntos e a banda tinha uma sonoridade mais simples e que até me facilitava as coisas, na realidade. Criar melodias naquele padrão mais simples era até melhor para mim como vocalista, entende? E sempre gostei de compor e criar com o Sabbath, porque é mais pesado que o Rainbow e era mesmo isso que queria fazer!

Falando agora sobre o começo do Dio, quando você e o baterista Vinny Appice deixaram o Black Sabbath, em outubro de 1982, como chegaram aos outros músicos para a criação do grupo? Quando você sentiu que deveria seguir em carreira solo com o Dio?
Dio: Quando a minha saída do Black Sabbath foi confirmada, e o mesmo já tinha acontecido quando deixei o Rainbow - ambos grupos que sentia que ainda poderia contribuir muito mais, só que não tive escolha e não saí por opção minha -, decidi que seria hora de fazer algo próprio. Não queria mais que outros controlassem a minha vida. Musicalmente, sabia que estava maduro o suficiente para compor boas músicas. Claro que foi importante tocar com Ritchie (Blackmore) e Tony (Iommi), mas queria poder controlar as minhas ações. Vinny e eu saímos ao mesmo tempo do Sabbath e ele concordou comigo que deveríamos criar algo novo. Eu o conhecia bem e, além do mais, havia o fato de ele ser um ótimo músico. Então nós saímos em busca de um baixista e um guitarrista. Fomos para a Inglaterra e acabamos encontrando com Jimmy Bain e foi por intermédio dele que chegamos ao Vivian Campbell. Nos reunimos em um estúdio em Londres e tudo saiu muito bem, pois nos entrosamos logo de início. Vinny curtia tocar com Jimmy e, apesar de jovem, Vivian já era um brilhante guitarrista.

Quais foram as primeiras composições criadas para o Dio?
Dio: Holy Diver e Don't Talk To Strangers. Já tinha feito estas composições e mostrei-as para Vinny, Jimmy e Vivian assim que formamos o Dio. A partir dali as coisas foram saindo da melhor forma possível. Enfim, um momento mágico.

Você se lembra dos trabalhos e das gravações para o Holy Diver?
Dio: Nós trabalhamos arduamente para lançar um bom álbum. A experiência foi bem autoral, pois fizemos tudo do jeito que queríamos e que achávamos que iria funcionar. Aprendemos bastante coisa naquela produção, inclusive com nossos erros, alguns os quais até ríamos depois. Mas os acertos foram maiores. Veja, por exemplo, o som da bateria... Nós construímos uma sala gigante e ela parece que foi gravada ao vivo! Usamos também para o The Last In Line e isso funcionou bem para o kit da bateria de Vinny Appice. As outras coisas foram aqueles negócios de banda mesmo, com todos dando o máximo nos ensaios e na criação em si. Holy Diver não foi um álbum feito em meio a festas ou eventos paralelos. Foram coisas de trabalho, com toda aquela interação momentânea e espontânea que ocorre entre músicos que estão gravando.

Existe alguma música feita nas sessões de Holy Diver que foi deixada de lado?
Dio: Sim, há uma música, mas ela sequer foi finalizada. Apenas a deixamos de lado e eu a odiava tanto que certo dia cheguei ao ponto de destruir aquela fita. Mas nós nunca fomos de gravar algo a mais, somente quando éramos obrigados, como para o Japão, que sempre pede algum bônus. As músicas que gravamos em todos os álbuns foram aquelas que trabalhamos em cima.

E como foi para você - que carregava o peso de ser um ex-Rainbow e um ex-Black Sabbath - sentir uma resposta tão positiva e rápida para músicas como Stand Up And Shout, Holy Diver, Don't Talk To Strangers e Rainbow In The Dark?
Dio: Acho que as músicas falam por si. Elas têm qualidade e o álbum todo é bom. Mas claro que fiquei surpreso com aquela receptividade instantânea dos fãs. Eu realmente não esperava por uma resposta tão rápida e forte. Fiquei muito contente e confiante.

Como surgiu a ideia de tocar o álbum Holy Diver na íntegra e lançá-lo em CD e DVD (Holy Diver Live)?
Dio: A sugestão partiu de nosso agente na Inglaterra, que tinha pensado que poderia ser uma coisa bem interessante tocar o álbum inteiro ao vivo. O Deep Purple tinha feito isto com o Machine Head, o Queensrÿche com o Operation: Mindcrime e outras bandas também realizaram shows destacando um disco inteiro. Desta forma, senti que o projeto deveria ser levado adiante, ainda mais porque o Holy Diver é muito popular e por isso que, ao invés de tocá-lo somente na Inglaterra, acabamos por fazer uma turnê inteira com este apelo em cima do Holy Diver. A ideia sempre me pareceu legal e acredito que os fãs também aprovaram, especialmente porque muitas daquelas músicas não eram tocadas havia bastante tempo.

As apresentações da turnê "Holy Diver Live" trouxeram boas lembranças de seu passado, do início da carreira com a banda Dio?
Dio: Sim! Tudo foi especial, ainda mais porque o Holy Diver foi o primeiro álbum e o que obteve grande reconhecimento para a banda Dio. E não são apenas algumas poucas músicas boas, o disco inteiro é falado e por isso a receptividade dos fãs nos shows foi altamente empolgante para todos. Muitas pessoas nunca tinham nos visto tocando algumas daquelas composições, enquanto outros não as viam ao vivo fazia muito tempo, há mais de vinte anos... A reação foi muito boa, acredito que não somente pelo Holy Diver, mas também porque o set tinha duração de cerca de duas horas e meia, com outras coisas do Dio, do Rainbow e do Black Sabbath.

A arte da capa de Holy Diver apresenta um personagem que acabou virando mascote para o Dio. A ideia inicial era mesmo esta?
Dio: No começo seria apenas mais uma figura que faria parte de um todo na arte da capa. Queríamos mesmo ter uma pessoa e um outro personagem, além de um logotipo bem chamativo e que pudesse cativar de alguma forma os fãs de Metal. Com o tempo as pessoas passaram a se interessar mais e aquele personagem acabou se tornando a mascote, com "vida própria", um nome e sendo parte do Dio.

Por que deram o nome de Murray para a mascote?
Dio: 'Murray, the monster'... Achei que soaria mais monstruoso e, além disso, seria engraçado chamar de Murray aquela figura malvada...

Ainda sobre isto, o dragão que fazia parte do cenário na turnê do álbum Sacred Heart e era um dos pontos altos do show foi chamado de Denzil...
Dio: Na verdade, todo mundo o chama assim, mas seu nome é 'Dean, the dragon'. Por alguma razão, outra pessoa começou a falar que ele era o Denzil e aí pegou, mas o correto é Dean.

Já que estamos falando sobre curiosidades, muitos também dizem que o logotipo do Dio quer dizer Devil. Qual a sua opinião a respeito disso?
Dio: Não tem nada a ver e não foi intencional. Se você olhar de cabeça para baixo até pode parecer que é, mas não estudamos uma fórmula para que nosso logo fosse visto assim, com duplo sentido. Alguém, um dia, resolveu virar de ponta cabeça, ficou analisando e achou que Dio poderia querer dizer “Devil”, mas não tivemos nenhuma intenção de fazer isto.

E sobre o 'maloik', aquele sinal com os dedos - fechando a mão parcialmente e mostrando o dedo indicador e o mindinho - que tanto caracteriza o Heavy Metal. Você se lembra quando começou a fazê-lo?
Dio: É sempre bom ter alguma coisa que você pode repetir várias vezes e as pessoas aceitam. No meu caso, foi porque a minha avó era italiana e usava o 'Maloik', que a protegia contra o olho do mal ('evil eye'). Quando eu era criança, a via usá-lo com freqüência e, assim, desde a fase do Rainbow, comecei a fazer o sinal. Não foram tantas vezes, mas usei-o. Só que no Sabbath, quando eu queria fazer uma figuração de algo mais malvado, fazia o símbolo do 'evil eye' com as mãos. As coisas foram indo e em certo ponto as pessoas já até esperavam que eu fizesse aquele sinal para que eles repetissem e isso acabou se tornando algo mundial.

Este sinal tem conexão com o Egito antigo, onde o chamavam de 'evil eye sign' (o sinal do olho do mal), mas existe alguma ligação com a música Evil Eyes, do álbum The Last In Line, mesmo porque naquele álbum ainda consta a faixa Egypt (The Chains Are On)?
Dio: Entendo sua explanação, mas, com relação àquela música, apenas achei que o título Evil Eye seria interessante. Não fui tão a fundo e ela não tem esta ligação. Não foi nada além de um bom nome. Ela foi escrita a partir de algum filme, não me lembro direito. E a compus até certo ponto bem rápido, já que precisávamos apresentar uma nova música que tivesse certa conexão entre o Holy Diver e o The Last In Line e esta ficou perfeita.

A banda Dio iniciou a "Dream Evil World Tour” tocando em Irvine/CA (EUA), em um evento chamado "Children Of The Night", mas o que pode falar a respeito do projeto de mesmo nome, também chamado de "Hear’n’Aid 2"?
Dio: Será o mesmo projeto beneficente com um álbum nos mesmos moldes do Hear'n'Aid, que fizemos em 1985, para a instituição "Rock Relief For Africa". Teremos uma música completa, de longa duração, com muitos músicos convidados e envolvidos, com diversos vocalistas, como Bruce Dickinson, e também guitarristas. O resto do álbum terá material inédito de outras bandas, como Doro, por exemplo, que já confirmou sua participação. No começo do ano que vem com certeza ele começará a ser produzido.

Você acredita que terá tempo para trabalhar na segunda parte do "Hear 'N' Aid"?
Dio: Para mim é uma certeza que farei, mas ainda não tive tempo suficiente para efetivamente começar os trabalhos. Todo mundo está com a agenda abarrotada e, além disso, não vou compor algo de baixa qualidade, um lixo desprezível só para dizer que a segunda parte foi lançada.

Considerando que você já tocou ao lado de muitos músicos de renome, quem você gostaria de ressuscitar para integrar um novo projeto "Hear 'N' Aid"?
Dio: Sempre declarei em minhas entrevistas que o único músico que gostaria de dividir o palco e tocar junto seria o Jimi Hendrix.


RAIO-X - RONNIE JAMES DIO:
Nome: Ronald James Padavona
Data de nascimento: 10 de julho de 1942
Data de morte: 16 de maio de 2010
Local de nascimento: Portsmouth, New Hampshire (EUA)
Cidade onde cresceu: Cortland
Ascendência: Italiana
Primeiros instrumentos: Trompete e contrabaixo
Esporte praticado na infância: Baseball
Heavy Metal ou Rock And Roll?: "Heavy Metal para mim, mas é tudo parte do Rock And Roll..."
The Vegas Kings (1957): "O começo"
Ronnie And The Rumblers (1957-1958): "Começando a ficar malvado"
Ronnie And The Redcaps (1958): "Cabeças-de-vento"
Ronnie Dio & The Prophets (1961-1967): "Cabeças-de-vento em dobro"
The Electric Elves (1967-1972): "Excelente material"
ELF (1972-1975): "O real começo do que acabei me tornando"
Butterfly Ball And The Grasshopper’s Feast: "Divertido de fazer, ainda mais por ter Roger Glover"
Rainbow ou Black Sabbath?: "Difícil. Não dá para comparar opostos"
Niji Productions: "Minha vida, cuida dos meus problemas e dirige minha carreira"
Dehumanizer ou Mob Rules?: "Dehumanizer"
Ronald Padavona: "Apenas um cara normal, que vive como todo mundo"

Site: www.ronniejamesdio.com

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Nomes femininos no Rock, uma história de homenagens e lendas

Títulos de músicas com nomes femininos sempre fizeram parte do universo do Rock desde a sua criação nos anos 50. Os precursores acostumaram-se a prestar homenagens ao sexo feminino e estas poderiam tanto ir para seus casos amorosos, como para a mãe, a tia, a avó, a prima a cunhada ou, simplesmente, porque soava bem.

Em 1958, no mesmo ano em que Danny And The Juniors cantava "Rock And Roll Is Here To Stay, It Will Never Die", Chuck Berry emplacava o single Carol, cuja letra falava sobre o temor de um garoto que precisava aprender a dançar para não perder a sua amada Carol. Tempos depois, a música foi coverizada pelos Beatles e os Rolling Stones.

Eleanor Rigby
Passado o grande impacto ocorrido nos anos 50 com o surgimento do Rock’n’Roll, a cena musical viria a se impressionar nos anos 60 com a 'Beatlemania'. E uma das composições mais conhecidas do quarteto de Liverpool é Eleanor Rigby.

Segundo 'Sir James' Paul McCartney, Eleanor é o nome da atriz que contracenou com os Beatles no filme "Help!" (1965) e o complemento Rigby foi tirado de uma loja de conveniências. Só que foi cogitado que o título, na verdade, fora inspirado no nome de uma mulher sepultada em um cemitério situado perto da St. Peter's Church, justamente o local onde John Lennon e Paul McCartney haviam se conhecido em julho de 1957. Na lápide ainda existe uma menção a Father Mackenzie, que também consta na letra de Eleanor Rigby. Todavia, os as evidências sempre foram negadas por Paul McCartney.

Coincidência ou simples charme, o que se pode dizer é que os significados destes títulos com nomes femininos acabam quase sempre voltando para algo positivo. No Grammy Awards de 1966, os Beatles conquistaram o prêmio de melhor música por Michelle e Paul McCartney o de melhor performance vocal por Eleanor Rigby. Afora isso, Revolver (1966) levou o troféu de "melhor capa de disco".

Dois anos depois, os Beatles voltaram a atacar com Julia, faixa do White Album, uma homenagem de John para sua mãe, Julia Lennon. Curiosamente, Eleanor Rigby e Julia saíram juntas na trilha do álbum Love, compilada e remixada para um espetáculo do e Cirque du Soleil em 2006.

Há ainda títulos que sugerem que o nome seja de alguma mulher, mas o humor fala mais alto, caso de Martha My Dear, composta por Paul McCartney, feita em homenagem à sua cadela. A polêmica também entra em cena com Lucy In The Sky With Diamonds, do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967). O título trazia as iniciais LSD, fazendo com que fosse banida de algumas rádios, mas na verdade ela foi inspirada em um desenho feito por Julian, filho de John Lennon. Lucy O' Donnell era uma garotinha que se sentava ao lado de Julian na Heath House School.

Angie
Outro exemplo de mistério e lenda no título é a balada Angie dos Rolling Stones, que obteve o primeiro posto na parada de singles da Billboard em 1973. Assim como Eleanor Rigby dos Beatles, há diversos rumores que cercam o título desta faixa do álbum Goats Head Soup (1972). O maior deles aponta que ela teria sido escrita para a ex-mulher de David Bowie, Angie Bowie, mais uma das centenas de "amigas íntimas" de Mick Jagger.

Dizem ainda que esta teria sido a forma que Mick Jagger encontrou para se desculpar de Angie, que supostamente havia flagrado Mick e Bowie na cama. Outra corrente afirma que a letra sugere que estejam falando a respeito da relação de Jagger com Marianne Faithfull, que se encerrou em 1969. Mais uma possibilidade, a mais cabível, é que Keith Richards - que assina a faixa ao lado de Jagger - tenha escrito-a para sua filha Angela "Dandelion" Richards, nascida a 17 de abril de 1972, ano do lançamento de Goats Head Soup.

Beth
A balada Beth do Kiss é mais um caso curioso. Embora tenha feito enorme sucesso, a música por pouco não foi sacada do álbum Destroyer (1976), já que originalmente seria apenas o lado B do single de Detroit Rock City. Gene Simmons e Paul Stanley estavam receosos em incluí-la, mas um DJ americano de rádio colocou-a por descuido no ar e a composição de Peter Criss e Stan Penridge - originalmente chamada Beck e gravada no Demo-Tape da banda Lips - teve enorme acolhida. Além de ser o primeiro disco de ouro do Kiss em formato single, recebeu o prêmio no 'People's Choice Awards' de 1977.

O baterista e vocalista Peter Criss certa vez afirmou que Beck falava sobre sua esposa à época, Lydia, mas tempos depois reconsiderou e disse tratar de Becky Brand, namorada do guitarrista Michael (Mike) Brand do Chelsea, grupo que deu origem ao Lips.

Segundo Criss, a hipocondríaca Becky estava sempre doente e vivia interrompendo os ensaios. Até que numa ocasião ela telefonou no meio de um ensaio e Criss rascunhou o que o guitarrista Michael estava falando para Becky: "Beck, I heard you calling but I can't come home right now...". No final das contas, o diálogo virou a letra e bastou trocar Beck por Beth.

Whole Lotta Rosie
A letra de Whole Lotta Rosie, clássico do álbum Let There Be Rock (1978) do AC/DC fala sobre uma mulher obesa, Rosie, que tinha tido uma relação sexual com Bon Scott na Tasmânia. Apesar do peso (aproximadamente 120Kg), o falecido vocalista havia dito que a experiência fora uma das melhores de sua vida sexual.

O guitarrista Angus Young confesso que Bon Scott certa vez voltou à Tasmânia e encontrou Rosie bem mais magra, fato que o desapontou. Mesmo assim, Rosie sempre foi reverenciada pelo AC/DC e em diversos shows entra em cena como uma boneca inflável gigante, como consta no vídeo Live At Donington.

Vera
A faixa do cultuado álbum conceitual The Wall, lançado em 1979 pelo Pink Floyd, faz referência à cantora inglesa Vera Lynn, nascida em 1917. A letra traz: "Does Anybody Here Remember Vera Lynn?/Remember How She Said That We Would Meet Again Some Sunny Day?".

O conceito de The Wall era tratar da vida fictícia de um anti-herói chamado Pink, que tinha perdido o pai na Segunda Guerra Mundial e Vera Lynn fez sucesso justamente nesta época, com a música We'll Meet Again, de 1939.

My Michelle
A música My Michelle, composta por Axl Rose e Izzy Stradlin, saiu no platinado álbum de estreia do Guns N' Roses, Appetite For Destruction (1987), fala a respeito de uma conhecida da banda, Michelle Young, que tinha sido amiga da primeira namorada do guitarrista Slash.

De acordo com o vocalista Axl, certa vez ele e Michelle estavam no carro quando ouviram Your Song de Elton John no rádio. A garota logo comentou: "Eu sempre quis que alguém escrevesse uma música para mim". Dito e feito.

Curiosamente, Michelle Young é a garota que aparece no começo do videoclipe da música Welcome To The Jungle, outra faixa de sucesso de Appetite For Destruction.

Outros exemplos
Basta puxar pela memória que rapidamente encontramos hits como Izabella (Jimi Hendrix), Layla (Eric Clapton), Barbara Ann (The Beach Boys), Carol (Rolling Stones), Sara e Johanna (Bob Dylan), Kayleigh (Marillion), Abigail (King Diamond), Little Sheila (Slade), Amanda e Magdalene (Boston), Rhiannon (Fleetwood Mac), Jamie's Cryin' (Van Halen), Madalaine (Winger), Sheena Is A Punk Rocker e Judy Is A Punk (Ramones), entre dezenas de outras que não se tornaram hits, mas têm a mesma ligação.

Só que algumas bandas foram além e fizeram deste recurso quase que uma tradição, caso da norte-americana Toto, com Angela, Goodbye Elenore, Pamela, Melaine, Carmen, Manuela Run, Lorraine, Lea, Anna e um de seus maiores hits, Rosanna, faixa do álbum Toto IV (1982). O mistério sobre o título permanece sem esclarecimento, embora alguns digam que a homenageada seria a atriz Rosanna Lauren Arquette, ex-namorada do tecladista Steve Porcaro. O autor da música, David Paich, nega.

Outro grupo que tradicionalmente incluiu títulos assim foi o inglês Status Quo, como se vê no álbum Ma Kelly's Greasy Spoon (1970) e em músicas como Elizabeth Dreams, Antique Angelica, Caroline, Claudie, Joanne, Sheila (cover do The Satins) e Lucille (de Albert Collins e Little Richard).

O falecido Phil Lynott (vocal e baixo), líder do Thin Lizzy, homenageou sua mãe Philomena Lynott em Philomena, sua avó Sarah Lynott em Sarah, além de Sweet Marie, na qual falava sobre a solidão de estar na estrada, longe de casa e dos entes queridos. Outra muito conhecida da banda é Rosalie, que faz parte do álbum Fighting (1975), na realidade um cover de Bob Seger (originalmente do álbum Back In '72), músico e compositor norte-americano que também incluiu vários nomes femininos em títulos (Evil Edna, Louise, Betty Lou's Gettin' Out Tonight e I Can't Save You Angelene).

Mesmo que nenhuma destas tenha sido criada por causa do real significado do nome, a maioria obteve sucesso e, portanto, não há como negar que a ligação surpreende, especialmente se formos analisar os grupos mais ligados ao Gothic, como The Mission (Severina, Fabienne e Amelia), The Sisters Of Mercy (Alice, Lucretia My Reflection e Marian), Charlotte Sometimes (The Cure) e Christine (Siouxie & The Banshees). Alice, por exemplo, significa 'a verdadeira', enquanto Fabiene significa 'fava que cresce e predispõe a pessoa a ter um sucesso cada vez maior em todos os seus empreendimentos'.

O grupo norueguês Theatre Of Tragedy, que recentemente se apresentou no Brasil, foi além e fez do álbum Aégis (1998) um verdadeiro tributo ao folclore que envolve o sexo feminino, em faixas como Cassandra, Lorelei e Angélique.

Uma outra hora falarei sobre a utilização de nomes artísticos femininos em bandas. Exemplos? Alice Cooper, Bathory, Lizzy Borden, Angelica, Britny Fox, Lillian Axe, Vanessa...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Azar?

Tudo corria bem na volta do "Wacken Open Air" (ALE) até que chegou o momento de fazer uma conexão no aeroporto de Heathrow, em Londres. A companhia aérea British Airways atrasou o voo vindo de Frankfurt e quando saíamos da aeronave foi aquela correria. Não estou dizendo "correria" no sentido figurado, mas literalmente, pois todo o grupo saiu de forma insana como se estivesse disputando uma prova olímpica. Resultado: perdemos a conexão e vimos o avião da Varig decolando. Imagine a sensação. Agora, imagine você a alegria de não ter um centavo no bolso, dentro de um aeroporto gigante, de madrugada e sem saber o que fazer. Mas que azar, pensei...

A fila do desembarque e a passagem pela imigração ainda revelaram grandes emoções, com um outro voo vindo de algum país do Oriente Médio. Óbvio que havia tensão no ar. Aí, comecei a falar ao meu amigo Carlo Antico: "Fudeu, oIhe pra trás!" Ele, com toda sua tranquilidade, só teve tempo de rir e falar: "Calma, meu". Tudo bem, segui com minha apreensão e passamos sem grande problemas, com Airton Diniz, que liderava aquele pequeno grupo da revista Roadie Crew com a Maria José e a Vera Diniz, explicando a nossa situação.

Depois foi aquele sufoco até conseguirmos falar com algum funcionário da British Airways, com diversos setores do aeroporto às escuras. Felizmente, uma portuguesa que trabalhava na companhia entendeu nosso desespero e agilizou para que conseguíssemos um táxi para ir ao hotel – com todas as despesas pagas pela empresa aérea. No começo ela só falou em inglês, mas "alguém" (eu mesmo!) falou algumas palavras mais fortes – "Fudeu! Olha que merda essa British Airways! E agora?" – e a funcionária, de repente, começou a nos entender melhor. A Maria José brincou comigo, dizendo: "A sua braveza deu sorte pra gente, Batalha!" Depois, caímos na risada.

A "tuga" ajudou, fez todo o trâmite e, enfim, pegamos dois táxis. O meu, junto com um casal de norte-americanos. Claro que fui direto para o lado do motorista achando que já ia sentar, mas aí todos riram alto e os americanos falaram: "We're in London". O motorista só deu uma risada e disse: "Yes, mate. This is my seat". Claro que fiquei com cara de otário e falei: "Sorry. I prefer to sit in the passenger's seat". Mancada inesperada mas corriqueira, segundo o "motora". Todos riram e fomos parar no hotel Renaissance, que não ficava tão longe. É, só no dia seguinte descobri que ficava longe de tudo, porque se era perto do aeroporto é óbvio que ficava bem afastado de Londres, a cerca de 25 quilômetros.

Instalados no quarto do hotel, que se seu fosse pagar a estadia estaria parcelada até hoje, falei para ao Carlo Antico que como eles pagariam tudo, podíamos comer. Pedimos duas pizzas pelo telefone, comemos e "desmaiamos" de cansaço.

No dia seguinte estávamos "livres" e o pessoal resolveu fazer um city tour por Londres. Tudo bem, eu disse que não tinha um centavo, mas tinha só o dinheiro (em real) para pagar o ônibus do aeroporto de Cumbica até Congonhas e uns trocados para o café e o cigarro. Se não fosse pela ajuda do Carlo, que bancou meu city tour, o meu sonho de infância em conhecer Londres não seria realizado. Desde os acontecimentos em Heathrow, Carlo – que apelidei de "Coleção" pela sua incontrolável mania de comprar CDs "para a coleção" – era o mais sossegado e estava curtindo ter perdido a conexão, enquanto eu estava apavorado pensando que ia ter que "dormir" no aeroporto.

Só quando o táxi que nos levou para o city tour estava próximo a Londres comecei a curtir. Comecei a lembrar de todos os amigos que moraram – ou moram – por lá ou que costumam visitar a cidade com frequência. Lembrei-me dos primeiros anos estudando na Cultura Inglesa e de guardar recortes de reportagens sobre Londres. Para ser bem sincero, eu torrava a paciência do meu falecido pai falando que eu queria ir para Londres. Bem, não deu antes, mas deu na sorte! Não foi possível conhecer toda a cidade, o que já era de se esperar de um rápido city tour combinado às pressas, mas pudemos ver locais históricos como o Royal Albert Hall, Palácio de Westminster – "Crianças, vejam o Big Ben!" –, Tower Bridge, Torre de Londres, Museu de História Natural, Hyde Park e, obviamente, o Abbey Road Studios.

Tudo me impressionou, mas a alegria de ver dois 'beatlemaníacos' como Airton Diniz e Carlo Antico na Abbey Road e em frente ao Abbey Road Studios foi indescritível. Porém, ao invés de tirar fotos na rua (Abbey Road) ou de escrever no muro como fazem os fãs dos Beatles, meu negócio era ver o estúdio. Entrei na recepção e joguei um xaveco que não colou. Vi muito pouco, já que não me deixaram entrar nas salas porque duas bandas estava gravando naquele momento. Enquanto isso, os fãs de Beatles estavam na Abbey Road que, ao contrário do que parece pela capa do álbum em que Paul, George, Ringo e John aparecem atravessando a rua, é muito movimentada. Os ingleses estão acostumados, mas não curtem muito aquele vai e vem de turistas loucos no meio da rua.

Depois do Abbey Road voltamos ao hotel, sem antes passar por um grande apuro com o sonolento motorista ao volante. Na "marginal" a caminho do hotel, ele simplesmente colocou o carro no "piloto automático" e cochilou por várias vezes. Enfim chegamos e, em seguida, nos preparamos para retornar ao aeroporto de Heathrow. De lá, saímos sem grandes problemas para Cumbica. Eu, claro, com 1m90 e sempre sentado na pior assento do avião. Mas valeu, mais um sonho de infância realizado e o azar virou sorte.

Resolvi postar esta história porque hoje, 23 de fevereiro de 2010, o estúdio Abbey Road foi classificado pelo governo britânico como sítio histórico, visando proteger o santuário da música Pop contra quaisquer planos de modificações radicais no imóvel.

Seguindo o parecer do organismo de preservação nacional English Heritage, a ministra britânica da Cultura, Margaret Hodge, situou o estúdio na segunda mais alta categoria de locais a serem preservados. Ao tombar o edifício no Grau 2, poderão ser feitas modificações no interior do imóvel, mas quaisquer reformas propostas terão que respeitar o caráter e a preservação dele.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Black Sabbath: primeira obra do Heavy Metal chega aos 40 anos

No post de 23 de novembro de 2008 ("Volume 4: a descoberta") falei sobre o meu primeiro contato com o Black Sabbath e, por consequência, com o Heavy Metal. Sendo assim, esta data não poderia passar em branco pois, curiosamente, aos 40 anos de idade vejo o primeiro álbum lançado por Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward também chegar a esta marca. Em sentido amplo, o Heavy Metal faz quarenta anos hoje: 13 de fevereiro de 2010.

Alguns estarão curtindo o feriadão de Carnaval, mas fiquemos aqui reverenciando esta obra fantástica e misteriosa, que serviu de referência para todos os seguidores da música pesada. Abaixo, reproduzo o texto publicado na edição #100 da revista ROADIE CREW sobre o álbum "Black Sabbath".

Sexta-feira chuvosa, dia 13 de fevereiro de 1970. A noite cai e os vestígios da escuridão se amoldam às árvores escurecidas. A longa noite macabra se inicia. Ainda perto da lagoa uma jovem garota espera. Ainda que ela acredite ser ela mesma etérea, sorri tenebrosamente ao tocar de sinos distantes. De repente, um calafrio da cabeça aos pés. O que é isso que se levanta à minha frente? Um vulto preto que aponta para mim. Viro rapidamente e começo a correr. Descobri que sou o escolhido. E a chuva continua caindo...

Sob este contexto, com uma proposta macabra e soturna, o Black Sabbath gravou seu álbum de estreia. Tendo uma mesa de quatro canais à disposição no Regent Sound Studios – localizado na Tottenham Court Road, em Londres (ING) – e com 600 libras inglesas para gastar, Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward montaram seus equipamentos como se fossem fazer um show. Os músicos, que àquela altura faziam shows seguidos mas tinham pouca, ou quase nenhuma, experiência de estúdio, gravaram o álbum ao vivo e em poucos takes.

O produtor Rodger (Roger) Bain também estava fazendo seu 'batismo de fogo', sendo esta a primeira experiência para uma grande empresa fonográfica. As composições não foram mexidas, mas os efeitos (sino, trovão, chuva, entre outros) foram sugeridos por Rodger e pelos engenheiros de som, Tom Allom e Barry Sheffield. Todos realmente entraram no clima naqueles três dias - 16 a 19 de outubro de 1969 – e Rodger ainda gravou a harpa judaica ('kakei') da faixa "Sleeping Village".

"Black Sabbath" resumiu-se a sete faixas (oito no relançamento em CD), todas envolventes. O disco abre com pesada e cadenciada faixa título, tendo um clima condizente com a proposta sombria. O track list ainda traz "The Wizard", "Behind The Wall Of Sleep", "N.I.B.", "Evil Woman" (cover da banda Crow), Sleeping Village, Warning (cover do Ansley Dunbar's Retaliation) e "Wicked World".

O trabalho veio embalado com uma misteriosa arte – comandada pelo artista Marcus Keef –, que na primeira (e rara) edição ainda trouxe o desenho de uma cruz invertida no encarte com os dados técnicos e o poema "Still Falls The Rain" inscrito no corpo da cruz.

Para a promoção, o empresário Jim Simpson e os funcionários da gravadora Vertigo decidiram lançar um compacto com "Evil Woman" e "Wicked World". Enquanto o Lado B com "Wicked World" fez sucesso, "Evil Woman" foi renegada pelo quarteto.

"Black Sabbath" alcançou o 8º lugar nas paradas do Reino Unido e a 23ª na Alemanha, mas a obra foi além, sendo o marco zero do que viria a ser classificado como Heavy Metal.

Curiosidades:
A casa de aparência mal assombrada que aparece na capa é um moinho histórico que se localiza na vila de Mapledurham, em Oxfordshire/ING (www.mapledurham.co.uk). A imagem da "bruxa", no entanto, ninguém sabe ao certo e cogita-se que teria sido uma atriz contratada para a sessão de fotos;

Na contracapa do LP, Ozzy veio impresso como Ossie Osbourne;

"N.I.B." não significa "Nativity In Black" e nem "Name In Blood". O título faz referência ao apelido dado a Bill Ward por causa de sua barba, que parecia uma ponta de caneta ('pen nib');

"Behind The Wall Of Sleep" tem ligação com a obra de H.P. Lovecraft ("Beyond The Wall Of Sleep);

A gaita tocada por Ozzy em "The Wizard "foi incluída durante as sessões de estúdio por acaso, após Iommi e Butler terem o escutado tocando-a de forma descontraída, como fazia nas longas jams desde os tempos em que atendiam pelo nome Earth;

A reação do pai de Ozzy, John Thomas Osbourne, ao ouvir o LP foi: "Você tem certeza que só anda fumando cigarro?", e ele ainda fez uma cruz de alumínio e uma corrente de pescoço para Ozzy, Iommi, Ward e Butler "para afastar os maus espíritos";

No local onde ficava o Regent Sound Studios hoje existe uma agência do Abbey Bank.